quarta-feira, 24 de março de 2010

Não conte com o final da impresso

Dizem que o livro impresso irá desaparecer. Dizem, ainda, que os jornais migrarão para a tela do computador e que as revistas deixarão de chegar semanalmente à caixa de correio das casas de seus leitores. O papel já não vai mais dar lugar às palavras. Lugar de informação será na tela do computador. Ou do Kindle, a nova ferramenta para leitura de e-books.

Existem, entretanto, aqueles que não abrem mão do bom, velho e conservador impresso. Sequer cogitam utilizar o Kindle e abominam qualquer possibilidade de passar uma tarde em frente a uma tela de computador lendo uma obra literária, seja ela qual for. Essas pessoas querem livros. Querem jornais de verdade. Querem o cheiro das páginas, a textura das capas, querem as palavras ali, em suas mãos.

O impresso sempre despertou em seus leitores um sentimento que beira a paixão desvairada. Ele exige o toque e a química, como os relacionamentos de verdade. O virtual, para esses, já nasce fraco, nasce distante, não tem a força da presença. É como ler jornal na internet: cômodo. E desde quando paixão sobrevive à comodidade?

Uma série de motivos podem tranqüilizar aqueles que temem pelo fim do impresso. A agilidade com a qual as notícias vão parar nas páginas iniciais dos sites de veículos de informação é assustadora. Porém, embora a agilidade seja um dos pontos fortes da internet, a busca pelo furo quase que instantâneo sujeita o jornalista ao erro. Por outro lado, a periodicidade constante de uma publicação impressa permite que cada assunto seja aprofundado e que o leitor tenha acesso a um conteúdo seguro, apurado e revisado.

Outro aspecto capaz de aborrecer leitores de jornal que resistem ao virtual é a limitação de uma tela de computador. Enquanto um jornal possibilita uma visualização completa de suas páginas, a configuração do computador obriga o leitor-internauta a passear descontroladamente por uma página muitas vezes bastante confusa. Jakob Nielsen, em Inverted Pyramids in Cyberspace, afirma que apenas 10% dos leitores de páginas da web utilizam o scroll, que o leva até o final da página. Esse dado prova que o usuário de serviços de informação pela internet busca, apenas, uma informação sucinta e objetiva. O aprofundamento do fato é tarefa esperada de um jornal impresso, que criou essa característica justamente com o objetivo de fugir do prejuízo causado pela expansão da internet.

É inevitável render-se às novas tecnologias. Ainda assim, a magia de uma grande biblioteca, a harmonia de uma estante lotada de obras do século passado e o cheiro inconfundível de um jornal recém-impresso ainda surpreendem. E, juro, não troco por nada nesse mundo a possibilidade de sonhar acordada ao ter em mãos um antigo exemplar de um grande clássico da literatura, com cheiro de mofo e mordidas de traças.

Moral que financia a ilegalidade

Ao defender a descriminalização do aborto, é comum que se ouça acusações severas e teorias nem sempre bem fundamentadas. Ainda que a Igreja posicione-se contrária à prática e que discussões morais e éticas levantem questões relacionadas ao assassinato de um ser incapaz de se defender, é necessário pensar nas conseqüências da criminalização do aborto. Enquanto os riscos dessa prática são divulgados de maneira desenfreada, grávidas seguem adotando o aborto como forma de suspender uma gravidez indesejada. A solução, para essas mulheres, está nas clínicas clandestinas.

A bandeira contra-aborto não leva em conta os riscos que correm gestantes que, ignorando a ilegalidade de seu ato, apelam para o aborto em clínicas irregulares. A prática é tomada como ilegal, mas os números de mulheres que abortam crescem assustadoramente a cada ano. A Organização Mundial de Saúde estima que no Brasil sejam provocados anualmente mais de 1,2 milhão de abortos clandestinos. Em 2006, complicações resultantes de interrupções de gravidez levaram à internação de 230 mil mulheres no SUS, o que custou aos cofres públicos cerca de R$ 33 milhões.

Não se leva em conta aspectos morais, éticos e religiosos frente a um problema da dimensão de uma gravidez indesejada. Criminalizar a prática serve como trampolim para uma indústria que mata milhares de mulheres todos os anos e que, por si só, financia inúmeras cadeias de ilegalidade. Que a maternidade seja desejada e que, caso não seja, a mulher receba a orientação necessária de maneira que possa escolher o melhor para seu futuro. Dar à luz tomada pela indiferença ou optar por um procedimento de alto risco, sem a higiene dos grandes hospitais e apoio médico, com certeza, não são a melhor opção.

O maior paradoxo da sociedade

Talvez a palavra tenha passado a ser tolerada, e aqui nasce um desconfortável paradoxo. É possível que seu significado seja, agora, ignorado. Mais provável ainda é que, com o passar do tempo, a maioria das pessoas tenha se esquecido de refletir sobre um substantivo abstrato com força suficiente para causar grande abalo à concretude das relações pessoais.

Equivocadamente, a sociedade deixou-se levar pela hipocrisia de estar aberta ao novo. Ativistas criam debates acalorados sobre homofobia, mulheres passaram a denunciar maridos agressivos e a discriminação racial leva pessoas para trás das grades. Ainda assim, a intolerância é causadora de sofrimento. O ser humano não aprendeu a lidar com a diferença.

Existe uma linha tênue entre a tolerância e seu tão conhecido antônimo. Aceitar nem sempre está relacionado à aprovação de determinada atitude ou forma de pensamento. O que acontece, entretanto, é que se tornou lugar-comum autodeclarar-se defensor das diferenças. Porém, a mente da humanidade ainda não está preparada para o novo. O novo assusta.

A intolerância tolerada é, hoje, uma das grandes responsáveis pela sanidade da maioria dos relacionamentos. Mais uma vez, é impossível deixar de citar o imenso paradoxo que aqui se instala. Ao aceitar uma atitude caracterizada como intolerante, é possível que se evite alimentar um ciclo interminável. Intolerantes não escutam. Intolerantes não entendem. Intolerantes devem ser tolerados. Pelo menos até que entendam que o dever de quem convive é, sempre, tolerar.

terça-feira, 2 de março de 2010

Por nada nesse mundo...

Lendo Memórias de Minhas Putas Tristes, do sempre genial Gabo, fiz uma coisa que em toda a minha vida de leitora poucas vezes havia feito: parei em uma frase. Muito tempo em uma só frase. “Não trocaria por nada nesse mundo as delícias do meu desassossego”. Nada tão simples e, ao mesmo tempo, tão avassalador poderia descrever com tamanha maestria o desassossego. Pode não parecer, mas ele é uma delícia.

Desassossegados, como bem descreveu Martha Medeiros, são aqueles que “amam com atropelo, cultivam fantasias irreais de amores sublimes, fartos e eternos, são sabidamente apressados, cheios de ânsias e desejos, amam muito mais do que necessitam e recebem menos amor do que planejavam.” São aqueles para os quais o coração nunca para de bater forte. Bate intenso, inconstante. Tudo é motivo para morrer. Morrer de amor, morrer de alegria, de ódio, de risada. Morrer de tudo.
Desassossegados são motivados pela angústia. Convivem com a ansiedade, lutam contra o tempo, amam o desafio. Odeiam o marasmo. E odeiam. Odeiam qualquer coisa, pois são movidos pelo intenso. E, se odeiam, amam ainda mais. Entendem-se sem se entender, falam sem pensar e, quando pensam, falam ainda mais. Podem, querem, correm, desistem. Conseguem.

Desassossegados buscam muito. Buscam tudo. Querem para agora, para ontem. Querem pra sempre. São um fluxo constante, intenso e persistente de emoções, de opiniões, de desejos. Eu sou um fluxo constante. Sou uma desassossegada. E não troco por nada nesse mundo as delícias desse meu desassossego.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O brilho muito além dos livros

Especial: Cobertura da 55ª Feira do Livro de Porto Alegre
Sentado em um pequeno banco de plástico, ele segura uma prancheta de madeira, sobre a qual coloca cuidadosamente uma folha de papel em branco. De uma lata de achocolatado bastante antiga, tira um lápis cujo tamanho denuncia o uso constante. A sua frente, uma menina, que aparenta ter no máximo 9 anos, segura um sorvete de chocolate. “O sorvete não, tá, tio? Só desenha até o pescoço.”

Silvio Miguel Alves é, pelo décimo ano, um dos inúmeros ambulantes que aproveita o movimento na Praça da Alfândega nos dias de Feira para lucrar. O caricaturista, além de desenhar com destreza os traços mais engraçados dos que arriscam se tornar uma caricatura, também faz retratos. “O movimento aumenta bastante na época da Feira. Eu estou sempre por aqui, mas época boa mesmo é agora. É hora de aproveitar”, afirma.

A poucos metros dali, Márcio e Karen Streck, de Canoas, observam um trabalho, no mínimo, curioso. Na placa que identifica o artista, a frase Escrevo quatro nomes em um grão de arroz. Enquanto aguarda a finalização da obra, que levará o nome do casal e de suas duas filhas, Karen, que visita o evento há mais de quinze anos, acredita que, além dos livros e dos autores, os artistas da Praça também são os grandes personagens da Feira. “É impossível vir para cá e não querer levar um livro. Mas existem lembranças que vão além da literatura e, daqui alguns anos, nos farão recordar que um dia estivemos aqui”, assegura.

Quem caminha pelas calçadas da 55ª edição da Feira já está habituado aos constantes anúncios dos alto-falantes. A voz feminina que ecoa pela Alfândega anuncia a presença de uma das mais antigas personalidades da festa dos livros: “Aproveite a Feira para tirar uma foto com o último lambe-lambe de Porto Alegre.” Varceli de Freitas Filho, que herdou a antiga máquina de seu pai, trabalha com fotografia desde os 12 anos. “A feira tem um glamour especial. São dias muito prazerosos, as pessoas contam que tiraram foto com o pai e que agora querem tirar com o filho”, conta, emocionado.

“Olha, filha, assim eram feitas as fotografias na época da vovó”. Segurando a mão da única
filha, a porto-alegrense Juliana Couto da Rosa aproxima-se de seu Varceli. A menina, bastante
surpresa, chega perto da grande câmera e a observa cuidadosamente. Para Juliana, Freitas é uma das marcas da Feira. "Vim para cá mostrar para a minha filha o último lambe-lambe. Não sabemos até quando Porto Alegre poderá dizer que tem o seu. Queria fazer com que ela entendesse um pouco do passado.”, diz.

As calçadas movimentadas da Praça da Alfândega são o palco de quem esperou o ano todo pelo evento cujo artista principal é o livro. Mágicos, pintores, contadores de histórias e pipoqueiros fazem transbordar, em cada um de seus gestos e palavras, a magia de um dos mais tradicionais acontecimentos da Capital. A Feira ganha um brilho especial por conta deles, que fazem a imaginação de cada visitante ir muito além das obras literárias.

A inclusão começa nos livros

Especial: Cobertura da 55ª Feira do Livro de Porto Alegre
A inclusão social chegou à Feira do Livro de Porto Alegre. O mundo mágico da literatura cedeu lugar, nos estandes do evento, a obras que tratam de um assunto que nem sempre merece lugar nos expositores de destaque: a educação inclusiva.

As políticas públicas de inclusão social indicam uma tendência nas escolas públicas e privadas do país. A proposta de incluir, nas escolas de todo o Brasil, alunos com algum tipo de deficiência física ou mental fez nascer a necessidade de preparar professores e demais integrantes da equipe escolar para lidar a nova demanda. A resposta para as dúvidas de quem tem, em sua sala de aula, estudantes com alguma necessidade especial pode ser encontrada nos livros.

Na banca da Editora Mediação, que trabalha diretamente com professores, o livreiro Anderson Souza destaca o crescimento da literatura de inclusão nos últimos anos. “Os professores buscam compreender o universo desses alunos. É uma situação na qual não é apenas o aluno que precisa de ajuda. O professor necessita de amparo e, de certa forma, é isso que ele encontra nos livros.” Segundo Souza, títulos destinados a lidar com alunos surdos e autistas estão entre os mais procurados.

Denise Rüwer, de Novo Hamburgo, dá aulas em uma escola com três alunos portadores de necessidades especiais. A professora da 2ª série observa que, ainda que existam cursos de especialização para dar aulas a esses estudantes, os livros são importantes aliados na formação de profissionais bem preparados. “As obras de inclusão são algumas das preferidas porque tratam de técnica. O professor que saber o que pensar e como deve agir em determinadas situações, e é exatamente isso que o livro diz”, afirma.

A 55ª edição da Feira do Livro de Porto Alegre pega carona em uma das grandes tendências mundiais. A possibilidade de reunir, em uma mesma sala de aula, alunos com aspectos tão diferentes representa o começo de uma grande mudança de comportamento. E, quando se fala em mudança, a ajuda dos livros não pode faltar.

A cara da Feira

Especial: Cobertura da 55ª Feira do Livro de Porto Alegre

Ele é a cara da Feira. Irreverente e apaixonado, Fabrício Carpinejar é um dos grandes personagens da 55ª edição da Feira do Livro de Porto Alegre. As unhas da mão esquerda pintadas e a tatuagem de escorpião no braço são a marca do jornalista e poeta, autor de treze obras e um dos finalistas do Fato Literário 2009. O escritor também concorre prêmio de melhor livro do ano com Canalha!, título com o qual recebeu o 51º Jabuti na categoria Contos e Crônicas.

Carpinejar é diferente. Assume a passionalidade comum dos poetas e a mistura à ousadia quase desregrada dos cronistas. O filho de Maria Carpi e Carlos Nejar exala uma genialidade ímpar. E aos que sentem o coração bater mais forte com suas palavras, uma boa notícia: toda essa genialidade está presente na Praça da Alfândega.

Na última terça-feira, 2, Fabrício esteve no Centro Cultural CEEE Érico Veríssimo com Retrato Falado – Terceira Sede: Elegias, quando abordou questões relacionadas à terceira idade. Mais tarde, levou Terceira Sede à Praça de Autógrafos.

No sábado, 7, Carpinejar lançou, no Pavilhão Central, o livro com as máximas de seu Twitter: www.twitter.com/carpinejar. Já no domingo, 8, às 16h, o escritor esteve no primeiro andar do Memorial com a obra Salva-vidas, coletânea de crônicas dos alunos da Oficina da Caixa Econômica Federal. Fabrício encerra sua participação na Feira nos dias 11 e 12, às 18h, no auditório do MARGS, com Qual a cor do seu rosto.

A Alfândega respira sua poesia, suas palavras, sua versatilidade. Sua jovialidade é a alegria de seus leitores. Sua experiência, o brilho da Alfândega. Fabrício Carpinejar é a cara da Feira.