segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Pode ficar pior

Ignorei um dos preceitos do jornalismo ao pensar no assunto sobre o qual escrevo. O ineditismo não é um dos objetivos dessa opinião. Ainda assim, me sentiria omissa caso deixasse de registrar impressões que venho tendo a respeito do que defino como a subestimação de minha inteligência.

Ultimamente, sou acordada por jingles com rimas sem criatividade nos sábados pela manhã e, nos poucos minutos em que ligo a televisão, ouço um sem-fim de promessas capazes de fazer rir: “Vou-cuidar-de-jovens-mulheres-idosos-crianças-necessitados-gestantes-sem-teto-desempregados-usuários-de-drogas-pobres-e-analfabetos”.

Vai cuidar de todo mundo e ainda melhorar transporte público, saúde, educação, esporte, cultura e, se sobrar dinheiro – e é claro que sobra –, ainda dá para construir algumas novas estradas. Diz que vai cuidar de todo mundo. Vai acabar cuidando de ninguém.

Ainda que fosse uma tarefa deveras difícil, esses dez segundos de promessas infundadas, algumas músicas que não saem da cabeça e os inúmeros folhetos que afrontam o planejamento gráfico me eram aceitáveis. Política é assim mesmo, afinal de contas. Nada disso havia me abalado – e, de fato, essa é a palavra que melhor define o sentimento – da forma como fez uma notícia que li essa semana.

Em seu blog, o jornalista Ricardo Noblat definiu o humorista Tiririca como “candidato para 1 milhão de votos”. O post falava a respeito da previsão de especialistas e pesquisas, que apontam a eleição de Tiririca para deputado federal pelo estado de São Paulo com uma votação inacreditável.

Um milhão. Um milhão de pessoas vão votar em alguém que diz não saber o que faz um deputado federal. Um milhão de pessoas vão votar em um candidato que se veste de palhaço e parece ignorar o bom senso de qualquer eleitor. Aliás, é provável que bom senso não seja uma das características de alguém que espera ser representado por uma pessoa cujo carro chefe de campanha é garantir: “Pior que está não fica”.

Sim, Tiririca. Pode ficar pior. Vai ficar pior se as eleições forem motivo de risada. Vai ficar pior se as discussões abordarem não mais as propostas dos candidatos, mas suas piadas. Vai ficar pior se – como aposta sua assessoria – as pessoas votarem em um candidato não porque o achem competente, mas porque querem protestar, e apenas isso.

Tiririca e sua imagem estereotipada são apenas um exemplo de que a política vem tomando rumos bastante diferentes do imaginado. Existem muito outros exemplos dignos de fazer chorar com a mesma facilidade com que provocam risadas. E a gritante aceitação desses personagens é um aviso: sempre pode ficar pior.

Alguém para seguir

Depois de invenções que causaram os mais diversos tipos de reação nos usuários do Twitter – como a possibilidade de pagar para que um assunto figure entre os mais comentados –, eis que o serviço apareceu com uma novidade que, ao primeiro olhar, pareceu-me razoavelmente útil.

Falo do Who to follow. Seguindo o Orkut e Facebook, que já sugeriam amigos, o Twitter agora indica a seu usuário pessoas que, provavelmente, ele tenha interesse em seguir. À primeira impressão, imaginei que encontraria perfis interessantes com os quais ainda não havia tido contato. Depois, vi que a sugestão do momento era que seguisse… o Kaká.

Nada contra o jogador, muito menos contra seus tweets. Talvez o Twitter tenha descoberto meu amor platônico de adolescência, mas eu sei da existência do @RealKaka e não: não quero segui-lo. O mesmo vale para o Boninho – por quem não fui apaixonada, evidente.

Nunca adicionei, em nenhum de meus perfis, qualquer pessoa que tenha sido sugerida por um serviço que – tenho medo disso – conhece-me quase tanto quanto eu mesma. Deveria saber que se ainda não adicionei pessoas com quem compartilho mais de cem amigos, é porque realmente não tenho interesse em fazê-lo.

Kaká para Fulano: “Hello .. Kisses !!”

Kaká para Sicrano: “bjo !!”

Kaká para Beltrano: “Hiiiiii !! Kisses”

Ah, ok, mas acho que eu não preciso saber disso.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Uma opinião formada

“Não sou formador de opinião”. Ouvi essa afirmação do David Coimbra, em seu último encontro com estudantes da Unisinos. Ouvi um dos colunistas mais lidos do Rio Grande do Sul falar que nunca escutou alguém dizer que mudou de idéia em relação a um assunto depois de ler um texto seu. David continuou: “As pessoas concordam com o que digo apenas quando está de acordo com o que elas pensam”.

Ouvir isso de um jornalista me deixou bastante frustrada. Depois de dizer que faltava à aula para ir ao bar, David Coimbra me fez pensar que, talvez, estivesse bebendo enquanto seus professores falavam sobre o poder do jornalismo na sociedade. Deve ter perdido a lição. Deve ser isso.

Jornalismo rico – e a favor da sociedade – é aquele capaz de formar opinião, ao invés de apenas jogar a informação ao público, esperando que dele surja um julgamento qualquer. Jornalistas competentes esmiúçam o fato, apuram cada detalhe e, ao fim, são capazes de fornecer um parecer no mínimo razoável, que possa, aí, sim, fomentar a opinião pública.

David falou sobre as carências no ensino das faculdades de jornalismo, deu como certo o fim do jornal impresso e absteve-se de comentar as acusações de monopólio que o Grupo RBS sofre em Santa Catarina. Ainda assim, fez com que eu saísse de sua palestra pensando apenas sobre sua indiferença quanto à influência que exerce sobre todos os que o lêem e ouvem. Tu formas opinião, sim, David. Qualquer jornalista forma.

Talvez um dos maiores orgulhos de grande parte dos profissionais da imprensa – e, possivelmente, um de seus grandes erros também – seja destacar sua suposta objetividade. A objetividade, diferente do que normalmente se aprende por aí, não é um dever do jornalista – não é, justamente pelo fato de que quem faz jornalismo sabe o quão forte é a marca da subjetividade em cada uma das palavras impressas em um papel.

Quem faz jornalismo deve conhecer o avassalador poder de uma nota no rodapé de um site. Quem produz informação e não faltou às aulas de Teorias do Jornalismo sabe que “informar objetivamente” vai muito além de fornecer uma visão crua do fato. É impossível desfazer-se de valores construídos enquanto cidadão e, principalmente, enquanto pessoa. Ainda que a credencial denuncie uma das profissões mais perseguidas pelo código de ética, jornalista é gente. Eu, tu, David Coimbra, e qualquer pessoa que se expresse é incapaz de fazer com que a expressão de seus valores não se transforme em opinião.

Não há como lutar contra a necessidade de impor-se frente ao que acontece na sociedade. Talvez David tenha arriscado mostrar-se humilde. Esqueceu, contudo, quem tem o talento ou a sorte de viver relação tão íntima com as palavras está fadado a expressar-se. E não há expressão mais sem vida do que aquela que não transborda opinião.

Para a Opinião do www.portal3.com.br

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O Brasil já esperava por uma tragédia

Brotou de debaixo dos escombros uma das mais inconvenientes verdades da política brasileira atual. A verdade é que não há proposta de política pública que encaminhe o lixo doméstico a locais específicos para este fim, uma vez que terrenos quaisquer são promovidos a aterro sanitário e, com o esgotamento de sua capacidade, voltam a ser solo suscetível à construção. O que existe é uma rede de interesses sustentada pela necessidade constante e desesperada de pessoas que se vêem frente a um dilema: morar em uma bomba prestes a explodir ou simplesmente não morar em lugar algum.

O Morro do Bumba era uma das tantas bombas prestes a explodir. De fato, explodiu. Explodiu e levou abaixo casas, restaurantes, igreja, escola e pessoas. Os mortos do Bumba foram mortos chorados antes mesmo de a tragédia acontecer. A catástrofe era iminente.

De 1970 a 1986, a localidade, no bairro Viçoso Jardim serviu de aterro sanitário para a produção desenfreada de lixo de Niterói. O solo, hoje preto, denuncia a decomposição do material que deu nome ao solo de contornos planos, perdidos por conta dos detritos. Em vez de reprimir a ocupação irregular do antigo lixão, o poder público incentivou sua ocupação. O Morro do Bumba foi berço de uma das primeiras obras de saneamento de Niterói: foi para lá que o então governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizolla, levou uma caixa d’água para atender os moradores. Logo depois, o programa Uma Luz na Escuridão chegou ao morro. Anos mais tarde, a prefeitura construiu uma escola municipal e implantou o programa Médico da Família. O Morro do Bumba havia se transformado em uma comunidade. Hoje, é o retrato do descaso do governo brasileiro em relação ao destino do lixo público.

A catástrofe no Morro do Bumba, que contabiliza mais mortos a cada resgate, já havia sido prevista por ambientalistas e ações movidas na Justiça. Permitir, por conta do descaso na fiscalização, que áreas impróprias sejam ocupadas sem controle algum é anunciar uma tragédia, e a indiferença à iminência da catástrofe fez o Brasil esperar, de certa forma conformado, pelo que viria a ser um dos maiores dramas de sua história.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Não conte com o final da impresso

Dizem que o livro impresso irá desaparecer. Dizem, ainda, que os jornais migrarão para a tela do computador e que as revistas deixarão de chegar semanalmente à caixa de correio das casas de seus leitores. O papel já não vai mais dar lugar às palavras. Lugar de informação será na tela do computador. Ou do Kindle, a nova ferramenta para leitura de e-books.

Existem, entretanto, aqueles que não abrem mão do bom, velho e conservador impresso. Sequer cogitam utilizar o Kindle e abominam qualquer possibilidade de passar uma tarde em frente a uma tela de computador lendo uma obra literária, seja ela qual for. Essas pessoas querem livros. Querem jornais de verdade. Querem o cheiro das páginas, a textura das capas, querem as palavras ali, em suas mãos.

O impresso sempre despertou em seus leitores um sentimento que beira a paixão desvairada. Ele exige o toque e a química, como os relacionamentos de verdade. O virtual, para esses, já nasce fraco, nasce distante, não tem a força da presença. É como ler jornal na internet: cômodo. E desde quando paixão sobrevive à comodidade?

Uma série de motivos podem tranqüilizar aqueles que temem pelo fim do impresso. A agilidade com a qual as notícias vão parar nas páginas iniciais dos sites de veículos de informação é assustadora. Porém, embora a agilidade seja um dos pontos fortes da internet, a busca pelo furo quase que instantâneo sujeita o jornalista ao erro. Por outro lado, a periodicidade constante de uma publicação impressa permite que cada assunto seja aprofundado e que o leitor tenha acesso a um conteúdo seguro, apurado e revisado.

Outro aspecto capaz de aborrecer leitores de jornal que resistem ao virtual é a limitação de uma tela de computador. Enquanto um jornal possibilita uma visualização completa de suas páginas, a configuração do computador obriga o leitor-internauta a passear descontroladamente por uma página muitas vezes bastante confusa. Jakob Nielsen, em Inverted Pyramids in Cyberspace, afirma que apenas 10% dos leitores de páginas da web utilizam o scroll, que o leva até o final da página. Esse dado prova que o usuário de serviços de informação pela internet busca, apenas, uma informação sucinta e objetiva. O aprofundamento do fato é tarefa esperada de um jornal impresso, que criou essa característica justamente com o objetivo de fugir do prejuízo causado pela expansão da internet.

É inevitável render-se às novas tecnologias. Ainda assim, a magia de uma grande biblioteca, a harmonia de uma estante lotada de obras do século passado e o cheiro inconfundível de um jornal recém-impresso ainda surpreendem. E, juro, não troco por nada nesse mundo a possibilidade de sonhar acordada ao ter em mãos um antigo exemplar de um grande clássico da literatura, com cheiro de mofo e mordidas de traças.

Moral que financia a ilegalidade

Ao defender a descriminalização do aborto, é comum que se ouça acusações severas e teorias nem sempre bem fundamentadas. Ainda que a Igreja posicione-se contrária à prática e que discussões morais e éticas levantem questões relacionadas ao assassinato de um ser incapaz de se defender, é necessário pensar nas conseqüências da criminalização do aborto. Enquanto os riscos dessa prática são divulgados de maneira desenfreada, grávidas seguem adotando o aborto como forma de suspender uma gravidez indesejada. A solução, para essas mulheres, está nas clínicas clandestinas.

A bandeira contra-aborto não leva em conta os riscos que correm gestantes que, ignorando a ilegalidade de seu ato, apelam para o aborto em clínicas irregulares. A prática é tomada como ilegal, mas os números de mulheres que abortam crescem assustadoramente a cada ano. A Organização Mundial de Saúde estima que no Brasil sejam provocados anualmente mais de 1,2 milhão de abortos clandestinos. Em 2006, complicações resultantes de interrupções de gravidez levaram à internação de 230 mil mulheres no SUS, o que custou aos cofres públicos cerca de R$ 33 milhões.

Não se leva em conta aspectos morais, éticos e religiosos frente a um problema da dimensão de uma gravidez indesejada. Criminalizar a prática serve como trampolim para uma indústria que mata milhares de mulheres todos os anos e que, por si só, financia inúmeras cadeias de ilegalidade. Que a maternidade seja desejada e que, caso não seja, a mulher receba a orientação necessária de maneira que possa escolher o melhor para seu futuro. Dar à luz tomada pela indiferença ou optar por um procedimento de alto risco, sem a higiene dos grandes hospitais e apoio médico, com certeza, não são a melhor opção.

O maior paradoxo da sociedade

Talvez a palavra tenha passado a ser tolerada, e aqui nasce um desconfortável paradoxo. É possível que seu significado seja, agora, ignorado. Mais provável ainda é que, com o passar do tempo, a maioria das pessoas tenha se esquecido de refletir sobre um substantivo abstrato com força suficiente para causar grande abalo à concretude das relações pessoais.

Equivocadamente, a sociedade deixou-se levar pela hipocrisia de estar aberta ao novo. Ativistas criam debates acalorados sobre homofobia, mulheres passaram a denunciar maridos agressivos e a discriminação racial leva pessoas para trás das grades. Ainda assim, a intolerância é causadora de sofrimento. O ser humano não aprendeu a lidar com a diferença.

Existe uma linha tênue entre a tolerância e seu tão conhecido antônimo. Aceitar nem sempre está relacionado à aprovação de determinada atitude ou forma de pensamento. O que acontece, entretanto, é que se tornou lugar-comum autodeclarar-se defensor das diferenças. Porém, a mente da humanidade ainda não está preparada para o novo. O novo assusta.

A intolerância tolerada é, hoje, uma das grandes responsáveis pela sanidade da maioria dos relacionamentos. Mais uma vez, é impossível deixar de citar o imenso paradoxo que aqui se instala. Ao aceitar uma atitude caracterizada como intolerante, é possível que se evite alimentar um ciclo interminável. Intolerantes não escutam. Intolerantes não entendem. Intolerantes devem ser tolerados. Pelo menos até que entendam que o dever de quem convive é, sempre, tolerar.

terça-feira, 2 de março de 2010

Por nada nesse mundo...

Lendo Memórias de Minhas Putas Tristes, do sempre genial Gabo, fiz uma coisa que em toda a minha vida de leitora poucas vezes havia feito: parei em uma frase. Muito tempo em uma só frase. “Não trocaria por nada nesse mundo as delícias do meu desassossego”. Nada tão simples e, ao mesmo tempo, tão avassalador poderia descrever com tamanha maestria o desassossego. Pode não parecer, mas ele é uma delícia.

Desassossegados, como bem descreveu Martha Medeiros, são aqueles que “amam com atropelo, cultivam fantasias irreais de amores sublimes, fartos e eternos, são sabidamente apressados, cheios de ânsias e desejos, amam muito mais do que necessitam e recebem menos amor do que planejavam.” São aqueles para os quais o coração nunca para de bater forte. Bate intenso, inconstante. Tudo é motivo para morrer. Morrer de amor, morrer de alegria, de ódio, de risada. Morrer de tudo.
Desassossegados são motivados pela angústia. Convivem com a ansiedade, lutam contra o tempo, amam o desafio. Odeiam o marasmo. E odeiam. Odeiam qualquer coisa, pois são movidos pelo intenso. E, se odeiam, amam ainda mais. Entendem-se sem se entender, falam sem pensar e, quando pensam, falam ainda mais. Podem, querem, correm, desistem. Conseguem.

Desassossegados buscam muito. Buscam tudo. Querem para agora, para ontem. Querem pra sempre. São um fluxo constante, intenso e persistente de emoções, de opiniões, de desejos. Eu sou um fluxo constante. Sou uma desassossegada. E não troco por nada nesse mundo as delícias desse meu desassossego.