Ignorei um dos preceitos do jornalismo ao pensar no assunto sobre o qual escrevo. O ineditismo não é um dos objetivos dessa opinião. Ainda assim, me sentiria omissa caso deixasse de registrar impressões que venho tendo a respeito do que defino como a subestimação de minha inteligência.
Ultimamente, sou acordada por jingles com rimas sem criatividade nos sábados pela manhã e, nos poucos minutos em que ligo a televisão, ouço um sem-fim de promessas capazes de fazer rir: “Vou-cuidar-de-jovens-mulheres-idosos-crianças-necessitados-gestantes-sem-teto-desempregados-usuários-de-drogas-pobres-e-analfabetos”.
Vai cuidar de todo mundo e ainda melhorar transporte público, saúde, educação, esporte, cultura e, se sobrar dinheiro – e é claro que sobra –, ainda dá para construir algumas novas estradas. Diz que vai cuidar de todo mundo. Vai acabar cuidando de ninguém.
Ainda que fosse uma tarefa deveras difícil, esses dez segundos de promessas infundadas, algumas músicas que não saem da cabeça e os inúmeros folhetos que afrontam o planejamento gráfico me eram aceitáveis. Política é assim mesmo, afinal de contas. Nada disso havia me abalado – e, de fato, essa é a palavra que melhor define o sentimento – da forma como fez uma notícia que li essa semana.
Em seu blog, o jornalista Ricardo Noblat definiu o humorista Tiririca como “candidato para 1 milhão de votos”. O post falava a respeito da previsão de especialistas e pesquisas, que apontam a eleição de Tiririca para deputado federal pelo estado de São Paulo com uma votação inacreditável.
Um milhão. Um milhão de pessoas vão votar em alguém que diz não saber o que faz um deputado federal. Um milhão de pessoas vão votar em um candidato que se veste de palhaço e parece ignorar o bom senso de qualquer eleitor. Aliás, é provável que bom senso não seja uma das características de alguém que espera ser representado por uma pessoa cujo carro chefe de campanha é garantir: “Pior que está não fica”.
Sim, Tiririca. Pode ficar pior. Vai ficar pior se as eleições forem motivo de risada. Vai ficar pior se as discussões abordarem não mais as propostas dos candidatos, mas suas piadas. Vai ficar pior se – como aposta sua assessoria – as pessoas votarem em um candidato não porque o achem competente, mas porque querem protestar, e apenas isso.
Tiririca e sua imagem estereotipada são apenas um exemplo de que a política vem tomando rumos bastante diferentes do imaginado. Existem muito outros exemplos dignos de fazer chorar com a mesma facilidade com que provocam risadas. E a gritante aceitação desses personagens é um aviso: sempre pode ficar pior.