quarta-feira, 24 de março de 2010

Moral que financia a ilegalidade

Ao defender a descriminalização do aborto, é comum que se ouça acusações severas e teorias nem sempre bem fundamentadas. Ainda que a Igreja posicione-se contrária à prática e que discussões morais e éticas levantem questões relacionadas ao assassinato de um ser incapaz de se defender, é necessário pensar nas conseqüências da criminalização do aborto. Enquanto os riscos dessa prática são divulgados de maneira desenfreada, grávidas seguem adotando o aborto como forma de suspender uma gravidez indesejada. A solução, para essas mulheres, está nas clínicas clandestinas.

A bandeira contra-aborto não leva em conta os riscos que correm gestantes que, ignorando a ilegalidade de seu ato, apelam para o aborto em clínicas irregulares. A prática é tomada como ilegal, mas os números de mulheres que abortam crescem assustadoramente a cada ano. A Organização Mundial de Saúde estima que no Brasil sejam provocados anualmente mais de 1,2 milhão de abortos clandestinos. Em 2006, complicações resultantes de interrupções de gravidez levaram à internação de 230 mil mulheres no SUS, o que custou aos cofres públicos cerca de R$ 33 milhões.

Não se leva em conta aspectos morais, éticos e religiosos frente a um problema da dimensão de uma gravidez indesejada. Criminalizar a prática serve como trampolim para uma indústria que mata milhares de mulheres todos os anos e que, por si só, financia inúmeras cadeias de ilegalidade. Que a maternidade seja desejada e que, caso não seja, a mulher receba a orientação necessária de maneira que possa escolher o melhor para seu futuro. Dar à luz tomada pela indiferença ou optar por um procedimento de alto risco, sem a higiene dos grandes hospitais e apoio médico, com certeza, não são a melhor opção.

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