Lendo Memórias de Minhas Putas Tristes, do sempre genial Gabo, fiz uma coisa que em toda a minha vida de leitora poucas vezes havia feito: parei em uma frase. Muito tempo em uma só frase. “Não trocaria por nada nesse mundo as delícias do meu desassossego”. Nada tão simples e, ao mesmo tempo, tão avassalador poderia descrever com tamanha maestria o desassossego. Pode não parecer, mas ele é uma delícia.
Desassossegados, como bem descreveu Martha Medeiros, são aqueles que “amam com atropelo, cultivam fantasias irreais de amores sublimes, fartos e eternos, são sabidamente apressados, cheios de ânsias e desejos, amam muito mais do que necessitam e recebem menos amor do que planejavam.” São aqueles para os quais o coração nunca para de bater forte. Bate intenso, inconstante. Tudo é motivo para morrer. Morrer de amor, morrer de alegria, de ódio, de risada. Morrer de tudo.
Desassossegados são motivados pela angústia. Convivem com a ansiedade, lutam contra o tempo, amam o desafio. Odeiam o marasmo. E odeiam. Odeiam qualquer coisa, pois são movidos pelo intenso. E, se odeiam, amam ainda mais. Entendem-se sem se entender, falam sem pensar e, quando pensam, falam ainda mais. Podem, querem, correm, desistem. Conseguem.
Desassossegados buscam muito. Buscam tudo. Querem para agora, para ontem. Querem pra sempre. São um fluxo constante, intenso e persistente de emoções, de opiniões, de desejos. Eu sou um fluxo constante. Sou uma desassossegada. E não troco por nada nesse mundo as delícias desse meu desassossego.
2 comentários:
Que delícia de texto
Que orgulho ver uma ex-aluna com esse nível de texto!
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