quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O brilho muito além dos livros

Especial: Cobertura da 55ª Feira do Livro de Porto Alegre
Sentado em um pequeno banco de plástico, ele segura uma prancheta de madeira, sobre a qual coloca cuidadosamente uma folha de papel em branco. De uma lata de achocolatado bastante antiga, tira um lápis cujo tamanho denuncia o uso constante. A sua frente, uma menina, que aparenta ter no máximo 9 anos, segura um sorvete de chocolate. “O sorvete não, tá, tio? Só desenha até o pescoço.”

Silvio Miguel Alves é, pelo décimo ano, um dos inúmeros ambulantes que aproveita o movimento na Praça da Alfândega nos dias de Feira para lucrar. O caricaturista, além de desenhar com destreza os traços mais engraçados dos que arriscam se tornar uma caricatura, também faz retratos. “O movimento aumenta bastante na época da Feira. Eu estou sempre por aqui, mas época boa mesmo é agora. É hora de aproveitar”, afirma.

A poucos metros dali, Márcio e Karen Streck, de Canoas, observam um trabalho, no mínimo, curioso. Na placa que identifica o artista, a frase Escrevo quatro nomes em um grão de arroz. Enquanto aguarda a finalização da obra, que levará o nome do casal e de suas duas filhas, Karen, que visita o evento há mais de quinze anos, acredita que, além dos livros e dos autores, os artistas da Praça também são os grandes personagens da Feira. “É impossível vir para cá e não querer levar um livro. Mas existem lembranças que vão além da literatura e, daqui alguns anos, nos farão recordar que um dia estivemos aqui”, assegura.

Quem caminha pelas calçadas da 55ª edição da Feira já está habituado aos constantes anúncios dos alto-falantes. A voz feminina que ecoa pela Alfândega anuncia a presença de uma das mais antigas personalidades da festa dos livros: “Aproveite a Feira para tirar uma foto com o último lambe-lambe de Porto Alegre.” Varceli de Freitas Filho, que herdou a antiga máquina de seu pai, trabalha com fotografia desde os 12 anos. “A feira tem um glamour especial. São dias muito prazerosos, as pessoas contam que tiraram foto com o pai e que agora querem tirar com o filho”, conta, emocionado.

“Olha, filha, assim eram feitas as fotografias na época da vovó”. Segurando a mão da única
filha, a porto-alegrense Juliana Couto da Rosa aproxima-se de seu Varceli. A menina, bastante
surpresa, chega perto da grande câmera e a observa cuidadosamente. Para Juliana, Freitas é uma das marcas da Feira. "Vim para cá mostrar para a minha filha o último lambe-lambe. Não sabemos até quando Porto Alegre poderá dizer que tem o seu. Queria fazer com que ela entendesse um pouco do passado.”, diz.

As calçadas movimentadas da Praça da Alfândega são o palco de quem esperou o ano todo pelo evento cujo artista principal é o livro. Mágicos, pintores, contadores de histórias e pipoqueiros fazem transbordar, em cada um de seus gestos e palavras, a magia de um dos mais tradicionais acontecimentos da Capital. A Feira ganha um brilho especial por conta deles, que fazem a imaginação de cada visitante ir muito além das obras literárias.

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