quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Segunda Guerra Mundial ganha vida na Feira

Especial: Cobertura da 55ª Feira do Livro de Porto Alegre

A magia e a barbárie do conflito que até hoje provoca a curiosidade de milhões de leitores no mundo inteiro tomaram conta da Feira. A história, as atrocidades e os segredos por trás da Guerra que mudou a história mundial são tema de alguns dos livros mais procurados por quem freqüenta a Praça da Alfândega nesses quentes dias de novembro.

Por que, mais de sessenta anos depois da assinatura do documento que confirmou a rendição do Japão e deu fim ao caos dos anos 40, o desejo por desvendar os mistérios que cercam Adolf Hitler, Joseph Stálin e Winston Churchill permanece vivo? A resposta é simples: a Segunda Guerra Mundial desafia e assusta. Através dos livros, crueldade e genialidade caminham juntas e proporcionam retornar à época mais atroz em que a humanidade viveu.

Em frente a um estande do Setor C, o empresário Jaime Moraes, de Campo Bom, observa a foto de Churchill, personagem da obra homônima, escrita por Lord Roy Jenkins. “A Segunda Guerra fascina. O fanatismo dos nazistas, as estratégias não divulgadas e os planos malsucedidos são um prato cheio para quem não abre mão da boa literatura”, comenta. Sua esposa, Cátia, que carrega um exemplar do livro Operação Valkíria, de Jesús Hernandez, acrescenta: “Não existe melhor lugar para encontrar literatura específica do que a Feira do Livro.”

Ao caminhar por entre os estandes dos quase 170 livreiros presentes no evento, a presença do grande número de títulos relacionados ao tema chama a atenção. A biografia de Hitler, de Joachin Fest, que analisa minuciosamente a personalidade do tirano alemão, é um dos volumes de maior destaque nos expositores. Churchill, Hitler e a Guerra desnecessária, de Patrick J. Buchanan, e Rosa de Stalingrado, de Valérie Benaim e Jean-Claude Halle, também estão entre os procurados.

Para o livreiro Nilton Silva, o tema sempre despertará o interesse dos leitores. “Ainda que antiga, a Guerra sempre será atual. A cada obra publicada o leitor tem a possibilidade de tirar novas conclusões, de encontrar a sua explicação para o que aconteceu”, afirma.

Entre biografias, manuais, almanaques e romances, a Segunda Guerra Mundial permanece viva. E, se um dos mais instigantes conflitos mundiais ainda não terminou, seu palco é, até 15 de novembro, a Praça da Alfândega.

O sonho estava ali

Tinha apenas nove anos. Cabelos negros, olhos verdes, pés pequeninos e alguns trocados no bolso. Já nem lembrava quando havia visto sua mãe pela última vez. Pai? Nunca havia tido. Caminhava em uma ruela escura, cujo cheiro lembrava o porão da casa de sua avó, da qual nem o rosto conseguia lembrar. Lembrava, apenas, do cheiro. Era azedo, molhado, antigo. Mais era impossível descrever. Foi passando a mão de dedos finos na parede de um prédio coberto por uma densa camada de musgo. Viu uma imensa ratazana sair de um bueiro. Quando se tem oito anos, a maioria das coisas costuma ser imensas.

Era sempre assim. Estava sozinha na rua, na cidade, no mundo. Dizia estar sozinha na “Via Lacta”. Tinha ouvido algo de nome parecido na televisão de um bar, do qual o limite era a porta. Tinha amigos, é verdade, mas eles eram diferentes. Eles não sonhavam. Ela sonhava.

Dormia na marquise de uma livraria, no coração de uma metrópole. Com a cabeça encostada em uma pequena pilha de papelões amassados, via através de uma grande janela de vidro todas as cores, todas as palavras, todos os sonhos. Todos os seus sonhos estavam ali. E, aí, sonhava um pouco mais.

Quando o sol da manhã começava a aparecer por entre os prédios que dizia serem os mais altos do mundo, acordou. Acordou naquele dia, àquela hora, sem saber exatamente o motivo. Viu um livro, a poucos metros de distância de sua cama de papelão. Um livro. Um livro vazio.

Ela sonhou tanto, e tanto, e tanto que um dia o sonho veio. Já tinha o que escrever. Tinha onde escrever. O sonho estava ali, em suas pequenas mãos. Era uma história que estava apenas começando.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Quando política já não é motivo de sonho

Por Lílian Stein, Daniela Fanti, Rafaela Kley e Juliane Pimentel
São Paulo, 25 de janeiro de 1984. O dia quente, próprio do verão brasileiro, era amenizado por pancadas de uma chuva persistente sobre a Praça da Sé. No marco zero da maior cidade do país, de mãos dadas, 300 mil pessoas cantavam o Hino Nacional. Estampada no peito de milhares de jovens, a frase Quero votar para Presidente. "Perguntaram se aqui estão 300 ou 400 mil pessoas, mas a resposta é outra. Aqui estão presentes as esperanças de 130 milhões de brasileiros”. A afirmação, do então governador de São Paulo, Franco Montoro Filho, fazia parte do discurso de uma das maiores manifestações políticas da história do Brasil: o movimento “Diretas Já”. Em comum entre políticos oposicionistas, líderes estudantis, sindicais e civis, um sonho: restaurar o regime democrático do país.

O protesto que deu origem a diversas manifestações pela volta das eleições diretas para presidente, entretanto, não teve um final feliz. Às 2h da madrugada de 26 de abril de 1984, uma das quintas-feiras mais tristes da história nacional, o resultado da votação da “Emenda Dante de Oliveira” foi divulgado. A volta do voto direto havia sido vetada pelo Congresso. A mobilização política, contudo, não perdeu força. Pressionados pelo povo, militares se viram obrigados a negociar com a oposição. Em janeiro de 1985, Tancredo Neves foi eleito presidente da República através do Colégio Eleitoral, nas últimas eleições indiretas do regime militar. A ditadura estava no fim.

Vinte e cinco anos e uma sociedade completamente diferente depois, as vozes contestadoras e rebeldes daqueles anos já não ecoam com tanta força pelas universidades, bares, ruas e salões lotados pelos que ainda têm muito a viver. A política deixou de ser motivo de sonho. Desmotivados por inúmeros escândalos de corrupção, CPIs mal-sucedidas e uma escancarada impunidade, aliados à dificuldade das escolas ao lidar com o assunto, os filhos de quem exigiu eleições diretas e pintou o rosto na luta pelo impeachment de um presidente já não planejam revoluções em seu país. O que aconteceu?

Por trás da complexidade de pesquisas acadêmicas e teorias de especialistas, há uma reposta simples: a juventude perdeu o interesse pela política. Para Cláudia Backes, de 18 anos, os discursos dos políticos brasileiros já não atingem a maioria da população. “Mesmo que haja interesse pela política, não existe um discurso direcionado a esse público. A falta de credibilidade também faz o jovem ignorar o assunto.”, afirma. Lucas Neves, de 19 anos, acrescenta. “A maneira como a política vem sendo tratada no Brasil é banal. É como se, por mais que houvesse luta, nada fosse mudar.”

Indiferença se reflete nas urnas

No Diretório Central da Unisinos, Rafael Santana, 29 anos, analisa as causas para a alteração no modo como os universitários lidam com o assunto. “Faltou, nesta década, a representação estudantil se reinventar e observar quem são os estudantes deste novo século, suas necessidades e anseios, que não são mais os de 1984”, observa o coordenador de finanças do DCE.

A indiferença à questão é refletida na maior arma dos que clamam por mudança: as urnas. Na eleição que escolheu a gestão de 2009 do DCE da Unisinos, dos mais de vinte mil estudantes da universidade, apenas 12,5% compareceram para votar. Para a estudante de Jornalismo Natacha Oliveira, de 18 anos, o jovem está acomodado. “Parece ser mais fácil dizer que não gosta do assunto, que prefere não saber. A maioria é indiferente ao próprio voto. Pergunte em que senador votou na última eleição. Muitos não sabem”, desafia.

Segundo o professor do curso de Direto da Unisinos André Luiz Olivier da Silva, ainda que tenha perdido o interesse pela política partidária, o jovem procura outras saídas para defender seus interesses na sociedade. “Enquanto as manifestações partidárias perdem fôlego, como os protestos populares contra um governo corrupto, outros tipos de manifestação política ganham espaço, como a parada gay ou protestos contra a violência urbana. Isso indica que as pessoas nunca deixaram de defender os seus interesses e participar, de algum modo, da vida política”, acredita.

As praças lotadas de 1984, agora, estão vazias. Hoje a imagem das 300 mil pessoas na Sé faz parte apenas nos arquivos dos jornais. Já não se ouve o canto, o choro, o grito. As milhares de vozes da juventude brasileira estão caladas. O desejo de mudança parece ainda vivo. Mas está guardado no silêncio. Se esse desejo continua, de fato, em pé, talvez falte um pouco de atitude. A luta pode ser difícil e intensa. Mas ela precisa recomeçar.
* Para a disciplina de Redação Jornalística II do curso de Jornalismo da Unisinos.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Veríssimo é rei!

Ele é. São poucos os que escrevem um único texto que pode ter tão vasto leque de leitores. É quase impossível abrir uma página de alguma de seus livros de crônica e deixá-la, alguns minutos depois, sem que ela tenha provocado ao menos uma leve risada.

Ao ganhar meu primeiro livro “de gente grande”, aos oito anos, no aeroporto do Rio de Janeiro, mal sabia eu que aquele seria um dos meus livros preferidos até hoje. Mamãe Sandra acertou ao escolher aquele livro de capa laranja, cujas páginas penetram, como outras obras do autor, nos lares e nas vidas dos brasileiros. Brasileiros como eu. Como você. Como o próprio Veríssimo. Comédias para se Ler na Escola: meu primeiro livro.

Recordo-me como se fosse hoje quando sentei nas sempre desconfortáveis poltronas da classe econômica do avião da TAM, quando peguei aquele livro cuja capa abriga um simpático gordinho grisalho sentado em uma classe de escola e li, no verso, algumas palavras de Ana Maria Machado: “Depois de ler este livro, duvido que algum jovem ainda seja capaz de dizer que não curte ler”. E eu, apaixonada por palavras que era, me encantei.

Luís Fernando Veríssimo me fascina até hoje. Meus filhos lerão Veríssimo. Meus netos lerão Veríssimo. Eu lerei Veríssimo. Sempre. E agora.

Somente Heróis

Admirava suas palavras, escritas ou faladas. Admirava seu olhar, sua voz, seus gestos, sua maneira de pensar misteriosa, ousada e, ao mesmo tempo, tão clara e sutil. Queria ser igual, não podia negar. Quando chegava, vestindo calça jeans e All Star, com segurança de homem e jeito de moleque, ela pensava: “eu quero ser que nem ele”. Admiração. Era o que sentia.

Na verdade, queria ser como todos aqueles que admirava. Queria ser como aqueles homens e mulheres que passaram por sua vida e deixaram marcas tão profundas que dela nunca mais saíram. Nem as marcas, nem eles.

A professora da segunda série, a da letra mais bonita que ela já havia visto – e que nunca mais vira uma igual. A da sétima, com a inesquecível frase: “tu tens jeito, mocinha”, que a levou onde está hoje. Aqueles do Ensino Médio, sempre atentos, sempre pacientes. Somente heróis lidam com adolescentes. Somente heróis lidam com hormônios fervilhando e mentes repletas de sonhos e ansiedade.

Somente heróis transformam em magia essa luta diária que se chama ensino. Somente heróis elogiam e criticam, sempre, no momento certo e acompanham a busca por um sonho de perto. São eles, os heróis, que deveriam ser lembrados como personagens principais. Eles, entretanto, preferem ser, apenas, coadjuvantes. Esse gesto só é digno de heróis. Somente heróis torcem, vibram, acompanham. Somente heróis são professores.

Vocês, meus heróis, me fizeram o que sou hoje. Parabéns pelo dia de vocês!


Escrito em 15/10/2009

E a saudade vem

Talvez você nem sinta mais saudade. Até que um dia, você percebe que aquela pessoa que um dia fez parte de sua vida, agora, está longe. Você não sabe mais o que ela faz, do que gosta, a que horas vai dormir. Será que ele ainda come pão com manteiga e açúcar? Será que ela ainda só consegue dormir depois de tomar uma xícara de café bem quente? E o leite? Só fica na medida depois de três colheres e meia de achocolatado?

Talvez você nem sinta mais saudade. A falta acostuma. E quando você pensar que, finalmente, aquela imensa cicatriz, a cicatriz causada pela falta, tiver fechado, virá a lembrança. Lembrança de conversas juvenis, de abraços adultos e de risadas infantis. Por que se foi?

E você já não sabe se ela ainda acorda às 7:13, se ele leva o cachorro para passear às terças, quintas e sábados, se aquela avó que estava doente morreu. Você não sabe. E acha que nem sente mais saudade. E é nessa hora que a saudade vem.

domingo, 4 de outubro de 2009

Lugares onde o tempo parou

Por Lílian Stein e Daniela Fanti


Um dos últimos dias de inverno marcava, também, o retorno do sol, que já aparecia por entre os morros. A temperatura era amena e a brisa, agradável. O canto dos pássaros em meio aos pinheiros e às jabuticabeiras embalava o início da manhã de trabalho de Noêmia Backes.


Ao acordar com o badalar dos sinos da igreja da comunidade, que bate sessenta vezes às seis horas da manhã, dona Noêmia, de 57 anos, levanta para preparar o café da família. A mesa, no canto esquerdo da já iluminada cozinha azul, precisa estar posta em quinze minutos. O pão, a lingüiça, o “schmmier”, a nata e o leite, que compõem a primeira refeição da segunda-feira, são fruto da propriedade da família, no interior da cidade de Dois Irmãos. Enquanto aquece o leite, Noêmia olha para o grande crucifixo acima da antiga cristaleira e faz o sinal da cruz.


Dona Noêmia nasceu em Dois Irmãos, quando a cidade ainda era distrito de São Leopoldo. Desde pequena, trabalhou nas propriedades da família. Aos 34 anos, já casada e com duas filhas, foi morar na zona rural do município, a dois quilômetros do centro. Lá, em uma propriedade de nove hectares, criou suas filhas e construiu, junto ao marido, Roque, o lugar que chama de “meu paraíso”.


Às seis e trinta da manhã, o casal Backes já se divide entre as principais tarefas do dia. Dona Noêmia precisa buscar os ovos postos pelas quatorze galinhas. Seu Backes deve cortar a grama e recolher as inúmeras folhas espalhadas por entre grandes cupinzeiros e árvores cobertas por musgo. “Minha vida é este lugar, estes bichos. Não existe dinheiro que pague o cheiro, a lama e os sons daqui”, afirma Roque. Alimentar os porcos, bois, as vacas, os terneiros, gatos e coelhos são as próximas tarefas de dona Noêmia. Seu Backes fica encarregado de pegar o leite e cuidar da vaca que deu à luz na última semana. O dia na propriedade dos Backes está apenas começando.


A 110 quilômetros dali, em Garibaldi, o dia nem bem havia clareado, e seu Alcides Debiasi, 64 anos, já estava com a enxada em mãos. “Bon giorno! Estou atrasado, hoje há muita coisa para fazer!”. Depois de acordar ao som do canto dos galos e de tomar o café da manhã preparado pela esposa, dona Assunta, 59 anos, está hora de trabalhar.


Ao listar mentalmente as tarefas que o aguardavam, seu Alcides sequer pensou que, a poucos quilômetros dali, uma cidade inteira estava apenas acordando. E, sem sair dos arredores da casa, partiu em direção a seus oito hectares de terra, cobertos por parreirais ainda sem folhas, aguardando a chegada da germinação. Dona Assunta já sabe que em dias ensolarados não deve esperar o marido para o almoço. “Nessa época do ano chove muito, e como dependemos do tempo, em dias como este é preciso acelerar o trabalho”, afirma, amarrando em volta da cintura o avental bordado por ela.

Enquanto se despede do marido, Assunta lava a louça preferida que ganhou de casamento, há mais de 35 anos, e guarda o pão, os biscoitos, a cuca, o bolo e as geléias, tudo feito em casa, em um armário coberto por um tecido xadrez rendado nas laterais. Ainda do armário, apanha dois baldes brancos vazios e sinaliza a próxima atividade do dia: “Não me lembro de ter comprado leite em toda a minha vida”.

Dona Assunta segue até a porta, onde veste os chinelos apropriados para a caminhada, e deixa a casa rumo à estrebaria. A estrada de terra, estreita o suficiente para que passe o pequeno trator da família, exibe as marcas feitas pelos pneus da máquina recém adquirida. Enquanto anda por entre as parreiras, olha para o horizonte coberto de verde e, com um sorriso estampado no rosto, afirma: “Não trocaria minha casa por nada neste mundo”.

Finais de semana são de festa e oração

Tipicamente alemã, o município de Dois Irmãos é um dos pólos de preservação da cultura alemã no Rio Grande do Sul. O interior da cidade concentra inúmeras famílias que abriram mão dos avanços tecnológicos da atualidade para preservar as tradições de seus antepassados. Assim como os Backes, mais de trinta famílias vivem no Vale Esquerdo, bairro da zona rural.


Aos finais de semana, os encontros no salão da comunidade são o principal passatempo das famílias. Ao lado da pequena igreja rosa, construída com a ajuda dos moradores da localidade, Seu Backes se reúne para jogar o tradicional jogo de cartas Schaffkopf, trazido pelos imigrantes alemães em 1824. Ao som de “bandinha”, os casais rodopiam pelo salão vestidos com os trajes de festa, chamados pelos moradores de “roupa de domingo”. Dona Noêmia afirma, em alemão: “Die Fest kommt nach der Messe”, ou “a festa vem só depois da missa”.


Em Garibaldi, os finais de semana são movimentados pelos jogos de bocha. O jogo chegou à Serra Gaúcha em 1875, junto às primeiras famílias italianas, época em que o município recebeu seu primeiro nome, Colônia de Conde D’Eu. Desde então, famílias como os Debiasi, os Sartori e os Nicaretta, seguem preservando os mais tradicionais costumes de seus antepassados.


Em Marcorama, na zona rural da cidade, onde vive Dona Assunta, aos finais de semana, as famílias italianas preservam um costume semelhante ao alemão, e se reúnem no salão da comunidade para festejar, comer, dançar, jogar cartas e rezar. Uma vez por ano, é realizado o campeonato de futebol entre as famílias. “Os times são formados a partir do sobrenome, não importa a idade. É mais um momento para relembrar nossas origens”, conta Dona Assunta.


Para o professor do curso de História da Unisinos Martin Dreher, a preservação da cultura dos antepassados faz parte da vida de quem vive no interior. “A vida nas zonas rurais mostra que há tecnologias que não são de primeira necessidade. As circunstâncias impostas a quem opta por esse estilo de vida chega a causar inveja a muitos urbanos, que buscam sítios próximos às cidades. Os rurais nos lembram quem fomos ontem”, comenta o professor.


Ao final do dia, sentada em frente a sua casa, dona Noêmia afirma ter orgulho de suas origens. “Vivo aqui porque quero. Não sinto falta de internet, nem quero saber como é.” O marido, que segura o gato da família no colo e fuma um cigarro de palheiro, complementa: “Nós, sim, sabemos o que é felicidade.”


Alcides Debiasi retorna à casa, construída há mais de cem anos, pouco depois das cinco horas da tarde. Dona Assunta já preparou o jantar: sopa de capeletti. O casal senta em frente ao fogão à lenha, a última atividade do dia. “Não precisamos de rádio nem de televisão. Em frente ao fogo, temos um momento só nosso. Aqui, podemos conversar”, afirma seu Alcides.


A noite de segunda-feira se aproxima em Dois Irmãos, na propriedade dos Backes e Garibaldi, na terra dos Debiasi. Os animais estão dormindo, o canto dos pássaros silenciou e o sol já não forma clareiras por entre as árvores. O tempo, para quem vive no interior de Dois Irmãos e Garibaldi, parece ter parado. Mas só parece. Lá, a vida está apenas começando.

* Para a disciplina de Redação Jornalística II do curso de Jornalismo da Unisinos