quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Quando política já não é motivo de sonho

Por Lílian Stein, Daniela Fanti, Rafaela Kley e Juliane Pimentel
São Paulo, 25 de janeiro de 1984. O dia quente, próprio do verão brasileiro, era amenizado por pancadas de uma chuva persistente sobre a Praça da Sé. No marco zero da maior cidade do país, de mãos dadas, 300 mil pessoas cantavam o Hino Nacional. Estampada no peito de milhares de jovens, a frase Quero votar para Presidente. "Perguntaram se aqui estão 300 ou 400 mil pessoas, mas a resposta é outra. Aqui estão presentes as esperanças de 130 milhões de brasileiros”. A afirmação, do então governador de São Paulo, Franco Montoro Filho, fazia parte do discurso de uma das maiores manifestações políticas da história do Brasil: o movimento “Diretas Já”. Em comum entre políticos oposicionistas, líderes estudantis, sindicais e civis, um sonho: restaurar o regime democrático do país.

O protesto que deu origem a diversas manifestações pela volta das eleições diretas para presidente, entretanto, não teve um final feliz. Às 2h da madrugada de 26 de abril de 1984, uma das quintas-feiras mais tristes da história nacional, o resultado da votação da “Emenda Dante de Oliveira” foi divulgado. A volta do voto direto havia sido vetada pelo Congresso. A mobilização política, contudo, não perdeu força. Pressionados pelo povo, militares se viram obrigados a negociar com a oposição. Em janeiro de 1985, Tancredo Neves foi eleito presidente da República através do Colégio Eleitoral, nas últimas eleições indiretas do regime militar. A ditadura estava no fim.

Vinte e cinco anos e uma sociedade completamente diferente depois, as vozes contestadoras e rebeldes daqueles anos já não ecoam com tanta força pelas universidades, bares, ruas e salões lotados pelos que ainda têm muito a viver. A política deixou de ser motivo de sonho. Desmotivados por inúmeros escândalos de corrupção, CPIs mal-sucedidas e uma escancarada impunidade, aliados à dificuldade das escolas ao lidar com o assunto, os filhos de quem exigiu eleições diretas e pintou o rosto na luta pelo impeachment de um presidente já não planejam revoluções em seu país. O que aconteceu?

Por trás da complexidade de pesquisas acadêmicas e teorias de especialistas, há uma reposta simples: a juventude perdeu o interesse pela política. Para Cláudia Backes, de 18 anos, os discursos dos políticos brasileiros já não atingem a maioria da população. “Mesmo que haja interesse pela política, não existe um discurso direcionado a esse público. A falta de credibilidade também faz o jovem ignorar o assunto.”, afirma. Lucas Neves, de 19 anos, acrescenta. “A maneira como a política vem sendo tratada no Brasil é banal. É como se, por mais que houvesse luta, nada fosse mudar.”

Indiferença se reflete nas urnas

No Diretório Central da Unisinos, Rafael Santana, 29 anos, analisa as causas para a alteração no modo como os universitários lidam com o assunto. “Faltou, nesta década, a representação estudantil se reinventar e observar quem são os estudantes deste novo século, suas necessidades e anseios, que não são mais os de 1984”, observa o coordenador de finanças do DCE.

A indiferença à questão é refletida na maior arma dos que clamam por mudança: as urnas. Na eleição que escolheu a gestão de 2009 do DCE da Unisinos, dos mais de vinte mil estudantes da universidade, apenas 12,5% compareceram para votar. Para a estudante de Jornalismo Natacha Oliveira, de 18 anos, o jovem está acomodado. “Parece ser mais fácil dizer que não gosta do assunto, que prefere não saber. A maioria é indiferente ao próprio voto. Pergunte em que senador votou na última eleição. Muitos não sabem”, desafia.

Segundo o professor do curso de Direto da Unisinos André Luiz Olivier da Silva, ainda que tenha perdido o interesse pela política partidária, o jovem procura outras saídas para defender seus interesses na sociedade. “Enquanto as manifestações partidárias perdem fôlego, como os protestos populares contra um governo corrupto, outros tipos de manifestação política ganham espaço, como a parada gay ou protestos contra a violência urbana. Isso indica que as pessoas nunca deixaram de defender os seus interesses e participar, de algum modo, da vida política”, acredita.

As praças lotadas de 1984, agora, estão vazias. Hoje a imagem das 300 mil pessoas na Sé faz parte apenas nos arquivos dos jornais. Já não se ouve o canto, o choro, o grito. As milhares de vozes da juventude brasileira estão caladas. O desejo de mudança parece ainda vivo. Mas está guardado no silêncio. Se esse desejo continua, de fato, em pé, talvez falte um pouco de atitude. A luta pode ser difícil e intensa. Mas ela precisa recomeçar.
* Para a disciplina de Redação Jornalística II do curso de Jornalismo da Unisinos.

Nenhum comentário: