Um dos últimos dias de inverno marcava, também, o retorno do sol, que já aparecia por entre os morros. A temperatura era amena e a brisa, agradável. O canto dos pássaros em meio aos pinheiros e às jabuticabeiras embalava o início da manhã de trabalho de Noêmia Backes.
Ao acordar com o badalar dos sinos da igreja da comunidade, que bate sessenta vezes às seis horas da manhã, dona Noêmia, de 57 anos, levanta para preparar o café da família. A mesa, no canto esquerdo da já iluminada cozinha azul, precisa estar posta em quinze minutos. O pão, a lingüiça, o “schmmier”, a nata e o leite, que compõem a primeira refeição da segunda-feira, são fruto da propriedade da família, no interior da cidade de Dois Irmãos. Enquanto aquece o leite, Noêmia olha para o grande crucifixo acima da antiga cristaleira e faz o sinal da cruz.
Dona Noêmia nasceu em Dois Irmãos, quando a cidade ainda era distrito de São Leopoldo. Desde pequena, trabalhou nas propriedades da família. Aos 34 anos, já casada e com duas filhas, foi morar na zona rural do município, a dois quilômetros do centro. Lá, em uma propriedade de nove hectares, criou suas filhas e construiu, junto ao marido, Roque, o lugar que chama de “meu paraíso”.
Às seis e trinta da manhã, o casal Backes já se divide entre as principais tarefas do dia. Dona Noêmia precisa buscar os ovos postos pelas quatorze galinhas. Seu Backes deve cortar a grama e recolher as inúmeras folhas espalhadas por entre grandes cupinzeiros e árvores cobertas por musgo. “Minha vida é este lugar, estes bichos. Não existe dinheiro que pague o cheiro, a lama e os sons daqui”, afirma Roque. Alimentar os porcos, bois, as vacas, os terneiros, gatos e coelhos são as próximas tarefas de dona Noêmia. Seu Backes fica encarregado de pegar o leite e cuidar da vaca que deu à luz na última semana. O dia na propriedade dos Backes está apenas começando.
A 110 quilômetros dali, em Garibaldi, o dia nem bem havia clareado, e seu Alcides Debiasi, 64 anos, já estava com a enxada em mãos. “Bon giorno! Estou atrasado, hoje há muita coisa para fazer!”. Depois de acordar ao som do canto dos galos e de tomar o café da manhã preparado pela esposa, dona Assunta, 59 anos, está hora de trabalhar.
Ao listar mentalmente as tarefas que o aguardavam, seu Alcides sequer pensou que, a poucos quilômetros dali, uma cidade inteira estava apenas acordando. E, sem sair dos arredores da casa, partiu em direção a seus oito hectares de terra, cobertos por parreirais ainda sem folhas, aguardando a chegada da germinação. Dona Assunta já sabe que em dias ensolarados não deve esperar o marido para o almoço. “Nessa época do ano chove muito, e como dependemos do tempo, em dias como este é preciso acelerar o trabalho”, afirma, amarrando em volta da cintura o avental bordado por ela.
Enquanto se despede do marido, Assunta lava a louça preferida que ganhou de casamento, há mais de 35 anos, e guarda o pão, os biscoitos, a cuca, o bolo e as geléias, tudo feito em casa, em um armário coberto por um tecido xadrez rendado nas laterais. Ainda do armário, apanha dois baldes brancos vazios e sinaliza a próxima atividade do dia: “Não me lembro de ter comprado leite em toda a minha vida”.
Dona Assunta segue até a porta, onde veste os chinelos apropriados para a caminhada, e deixa a casa rumo à estrebaria. A estrada de terra, estreita o suficiente para que passe o pequeno trator da família, exibe as marcas feitas pelos pneus da máquina recém adquirida. Enquanto anda por entre as parreiras, olha para o horizonte coberto de verde e, com um sorriso estampado no rosto, afirma: “Não trocaria minha casa por nada neste mundo”.
Finais de semana são de festa e oração
Tipicamente alemã, o município de Dois Irmãos é um dos pólos de preservação da cultura alemã no Rio Grande do Sul. O interior da cidade concentra inúmeras famílias que abriram mão dos avanços tecnológicos da atualidade para preservar as tradições de seus antepassados. Assim como os Backes, mais de trinta famílias vivem no Vale Esquerdo, bairro da zona rural.
Aos finais de semana, os encontros no salão da comunidade são o principal passatempo das famílias. Ao lado da pequena igreja rosa, construída com a ajuda dos moradores da localidade, Seu Backes se reúne para jogar o tradicional jogo de cartas Schaffkopf, trazido pelos imigrantes alemães em 1824. Ao som de “bandinha”, os casais rodopiam pelo salão vestidos com os trajes de festa, chamados pelos moradores de “roupa de domingo”. Dona Noêmia afirma, em alemão: “Die Fest kommt nach der Messe”, ou “a festa vem só depois da missa”.
Em Garibaldi, os finais de semana são movimentados pelos jogos de bocha. O jogo chegou à Serra Gaúcha em 1875, junto às primeiras famílias italianas, época em que o município recebeu seu primeiro nome, Colônia de Conde D’Eu. Desde então, famílias como os Debiasi, os Sartori e os Nicaretta, seguem preservando os mais tradicionais costumes de seus antepassados.
Em Marcorama, na zona rural da cidade, onde vive Dona Assunta, aos finais de semana, as famílias italianas preservam um costume semelhante ao alemão, e se reúnem no salão da comunidade para festejar, comer, dançar, jogar cartas e rezar. Uma vez por ano, é realizado o campeonato de futebol entre as famílias. “Os times são formados a partir do sobrenome, não importa a idade. É mais um momento para relembrar nossas origens”, conta Dona Assunta.
Para o professor do curso de História da Unisinos Martin Dreher, a preservação da cultura dos antepassados faz parte da vida de quem vive no interior. “A vida nas zonas rurais mostra que há tecnologias que não são de primeira necessidade. As circunstâncias impostas a quem opta por esse estilo de vida chega a causar inveja a muitos urbanos, que buscam sítios próximos às cidades. Os rurais nos lembram quem fomos ontem”, comenta o professor.
Ao final do dia, sentada em frente a sua casa, dona Noêmia afirma ter orgulho de suas origens. “Vivo aqui porque quero. Não sinto falta de internet, nem quero saber como é.” O marido, que segura o gato da família no colo e fuma um cigarro de palheiro, complementa: “Nós, sim, sabemos o que é felicidade.”
Alcides Debiasi retorna à casa, construída há mais de cem anos, pouco depois das cinco horas da tarde. Dona Assunta já preparou o jantar: sopa de capeletti. O casal senta em frente ao fogão à lenha, a última atividade do dia. “Não precisamos de rádio nem de televisão. Em frente ao fogo, temos um momento só nosso. Aqui, podemos conversar”, afirma seu Alcides.
A noite de segunda-feira se aproxima em Dois Irmãos, na propriedade dos Backes e Garibaldi, na terra dos Debiasi. Os animais estão dormindo, o canto dos pássaros silenciou e o sol já não forma clareiras por entre as árvores. O tempo, para quem vive no interior de Dois Irmãos e Garibaldi, parece ter parado. Mas só parece. Lá, a vida está apenas começando.
* Para a disciplina de Redação Jornalística II do curso de Jornalismo da Unisinos
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