quarta-feira, 12 de maio de 2010

Uma opinião formada

“Não sou formador de opinião”. Ouvi essa afirmação do David Coimbra, em seu último encontro com estudantes da Unisinos. Ouvi um dos colunistas mais lidos do Rio Grande do Sul falar que nunca escutou alguém dizer que mudou de idéia em relação a um assunto depois de ler um texto seu. David continuou: “As pessoas concordam com o que digo apenas quando está de acordo com o que elas pensam”.

Ouvir isso de um jornalista me deixou bastante frustrada. Depois de dizer que faltava à aula para ir ao bar, David Coimbra me fez pensar que, talvez, estivesse bebendo enquanto seus professores falavam sobre o poder do jornalismo na sociedade. Deve ter perdido a lição. Deve ser isso.

Jornalismo rico – e a favor da sociedade – é aquele capaz de formar opinião, ao invés de apenas jogar a informação ao público, esperando que dele surja um julgamento qualquer. Jornalistas competentes esmiúçam o fato, apuram cada detalhe e, ao fim, são capazes de fornecer um parecer no mínimo razoável, que possa, aí, sim, fomentar a opinião pública.

David falou sobre as carências no ensino das faculdades de jornalismo, deu como certo o fim do jornal impresso e absteve-se de comentar as acusações de monopólio que o Grupo RBS sofre em Santa Catarina. Ainda assim, fez com que eu saísse de sua palestra pensando apenas sobre sua indiferença quanto à influência que exerce sobre todos os que o lêem e ouvem. Tu formas opinião, sim, David. Qualquer jornalista forma.

Talvez um dos maiores orgulhos de grande parte dos profissionais da imprensa – e, possivelmente, um de seus grandes erros também – seja destacar sua suposta objetividade. A objetividade, diferente do que normalmente se aprende por aí, não é um dever do jornalista – não é, justamente pelo fato de que quem faz jornalismo sabe o quão forte é a marca da subjetividade em cada uma das palavras impressas em um papel.

Quem faz jornalismo deve conhecer o avassalador poder de uma nota no rodapé de um site. Quem produz informação e não faltou às aulas de Teorias do Jornalismo sabe que “informar objetivamente” vai muito além de fornecer uma visão crua do fato. É impossível desfazer-se de valores construídos enquanto cidadão e, principalmente, enquanto pessoa. Ainda que a credencial denuncie uma das profissões mais perseguidas pelo código de ética, jornalista é gente. Eu, tu, David Coimbra, e qualquer pessoa que se expresse é incapaz de fazer com que a expressão de seus valores não se transforme em opinião.

Não há como lutar contra a necessidade de impor-se frente ao que acontece na sociedade. Talvez David tenha arriscado mostrar-se humilde. Esqueceu, contudo, quem tem o talento ou a sorte de viver relação tão íntima com as palavras está fadado a expressar-se. E não há expressão mais sem vida do que aquela que não transborda opinião.

Para a Opinião do www.portal3.com.br

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O Brasil já esperava por uma tragédia

Brotou de debaixo dos escombros uma das mais inconvenientes verdades da política brasileira atual. A verdade é que não há proposta de política pública que encaminhe o lixo doméstico a locais específicos para este fim, uma vez que terrenos quaisquer são promovidos a aterro sanitário e, com o esgotamento de sua capacidade, voltam a ser solo suscetível à construção. O que existe é uma rede de interesses sustentada pela necessidade constante e desesperada de pessoas que se vêem frente a um dilema: morar em uma bomba prestes a explodir ou simplesmente não morar em lugar algum.

O Morro do Bumba era uma das tantas bombas prestes a explodir. De fato, explodiu. Explodiu e levou abaixo casas, restaurantes, igreja, escola e pessoas. Os mortos do Bumba foram mortos chorados antes mesmo de a tragédia acontecer. A catástrofe era iminente.

De 1970 a 1986, a localidade, no bairro Viçoso Jardim serviu de aterro sanitário para a produção desenfreada de lixo de Niterói. O solo, hoje preto, denuncia a decomposição do material que deu nome ao solo de contornos planos, perdidos por conta dos detritos. Em vez de reprimir a ocupação irregular do antigo lixão, o poder público incentivou sua ocupação. O Morro do Bumba foi berço de uma das primeiras obras de saneamento de Niterói: foi para lá que o então governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizolla, levou uma caixa d’água para atender os moradores. Logo depois, o programa Uma Luz na Escuridão chegou ao morro. Anos mais tarde, a prefeitura construiu uma escola municipal e implantou o programa Médico da Família. O Morro do Bumba havia se transformado em uma comunidade. Hoje, é o retrato do descaso do governo brasileiro em relação ao destino do lixo público.

A catástrofe no Morro do Bumba, que contabiliza mais mortos a cada resgate, já havia sido prevista por ambientalistas e ações movidas na Justiça. Permitir, por conta do descaso na fiscalização, que áreas impróprias sejam ocupadas sem controle algum é anunciar uma tragédia, e a indiferença à iminência da catástrofe fez o Brasil esperar, de certa forma conformado, pelo que viria a ser um dos maiores dramas de sua história.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Não conte com o final da impresso

Dizem que o livro impresso irá desaparecer. Dizem, ainda, que os jornais migrarão para a tela do computador e que as revistas deixarão de chegar semanalmente à caixa de correio das casas de seus leitores. O papel já não vai mais dar lugar às palavras. Lugar de informação será na tela do computador. Ou do Kindle, a nova ferramenta para leitura de e-books.

Existem, entretanto, aqueles que não abrem mão do bom, velho e conservador impresso. Sequer cogitam utilizar o Kindle e abominam qualquer possibilidade de passar uma tarde em frente a uma tela de computador lendo uma obra literária, seja ela qual for. Essas pessoas querem livros. Querem jornais de verdade. Querem o cheiro das páginas, a textura das capas, querem as palavras ali, em suas mãos.

O impresso sempre despertou em seus leitores um sentimento que beira a paixão desvairada. Ele exige o toque e a química, como os relacionamentos de verdade. O virtual, para esses, já nasce fraco, nasce distante, não tem a força da presença. É como ler jornal na internet: cômodo. E desde quando paixão sobrevive à comodidade?

Uma série de motivos podem tranqüilizar aqueles que temem pelo fim do impresso. A agilidade com a qual as notícias vão parar nas páginas iniciais dos sites de veículos de informação é assustadora. Porém, embora a agilidade seja um dos pontos fortes da internet, a busca pelo furo quase que instantâneo sujeita o jornalista ao erro. Por outro lado, a periodicidade constante de uma publicação impressa permite que cada assunto seja aprofundado e que o leitor tenha acesso a um conteúdo seguro, apurado e revisado.

Outro aspecto capaz de aborrecer leitores de jornal que resistem ao virtual é a limitação de uma tela de computador. Enquanto um jornal possibilita uma visualização completa de suas páginas, a configuração do computador obriga o leitor-internauta a passear descontroladamente por uma página muitas vezes bastante confusa. Jakob Nielsen, em Inverted Pyramids in Cyberspace, afirma que apenas 10% dos leitores de páginas da web utilizam o scroll, que o leva até o final da página. Esse dado prova que o usuário de serviços de informação pela internet busca, apenas, uma informação sucinta e objetiva. O aprofundamento do fato é tarefa esperada de um jornal impresso, que criou essa característica justamente com o objetivo de fugir do prejuízo causado pela expansão da internet.

É inevitável render-se às novas tecnologias. Ainda assim, a magia de uma grande biblioteca, a harmonia de uma estante lotada de obras do século passado e o cheiro inconfundível de um jornal recém-impresso ainda surpreendem. E, juro, não troco por nada nesse mundo a possibilidade de sonhar acordada ao ter em mãos um antigo exemplar de um grande clássico da literatura, com cheiro de mofo e mordidas de traças.

Moral que financia a ilegalidade

Ao defender a descriminalização do aborto, é comum que se ouça acusações severas e teorias nem sempre bem fundamentadas. Ainda que a Igreja posicione-se contrária à prática e que discussões morais e éticas levantem questões relacionadas ao assassinato de um ser incapaz de se defender, é necessário pensar nas conseqüências da criminalização do aborto. Enquanto os riscos dessa prática são divulgados de maneira desenfreada, grávidas seguem adotando o aborto como forma de suspender uma gravidez indesejada. A solução, para essas mulheres, está nas clínicas clandestinas.

A bandeira contra-aborto não leva em conta os riscos que correm gestantes que, ignorando a ilegalidade de seu ato, apelam para o aborto em clínicas irregulares. A prática é tomada como ilegal, mas os números de mulheres que abortam crescem assustadoramente a cada ano. A Organização Mundial de Saúde estima que no Brasil sejam provocados anualmente mais de 1,2 milhão de abortos clandestinos. Em 2006, complicações resultantes de interrupções de gravidez levaram à internação de 230 mil mulheres no SUS, o que custou aos cofres públicos cerca de R$ 33 milhões.

Não se leva em conta aspectos morais, éticos e religiosos frente a um problema da dimensão de uma gravidez indesejada. Criminalizar a prática serve como trampolim para uma indústria que mata milhares de mulheres todos os anos e que, por si só, financia inúmeras cadeias de ilegalidade. Que a maternidade seja desejada e que, caso não seja, a mulher receba a orientação necessária de maneira que possa escolher o melhor para seu futuro. Dar à luz tomada pela indiferença ou optar por um procedimento de alto risco, sem a higiene dos grandes hospitais e apoio médico, com certeza, não são a melhor opção.

O maior paradoxo da sociedade

Talvez a palavra tenha passado a ser tolerada, e aqui nasce um desconfortável paradoxo. É possível que seu significado seja, agora, ignorado. Mais provável ainda é que, com o passar do tempo, a maioria das pessoas tenha se esquecido de refletir sobre um substantivo abstrato com força suficiente para causar grande abalo à concretude das relações pessoais.

Equivocadamente, a sociedade deixou-se levar pela hipocrisia de estar aberta ao novo. Ativistas criam debates acalorados sobre homofobia, mulheres passaram a denunciar maridos agressivos e a discriminação racial leva pessoas para trás das grades. Ainda assim, a intolerância é causadora de sofrimento. O ser humano não aprendeu a lidar com a diferença.

Existe uma linha tênue entre a tolerância e seu tão conhecido antônimo. Aceitar nem sempre está relacionado à aprovação de determinada atitude ou forma de pensamento. O que acontece, entretanto, é que se tornou lugar-comum autodeclarar-se defensor das diferenças. Porém, a mente da humanidade ainda não está preparada para o novo. O novo assusta.

A intolerância tolerada é, hoje, uma das grandes responsáveis pela sanidade da maioria dos relacionamentos. Mais uma vez, é impossível deixar de citar o imenso paradoxo que aqui se instala. Ao aceitar uma atitude caracterizada como intolerante, é possível que se evite alimentar um ciclo interminável. Intolerantes não escutam. Intolerantes não entendem. Intolerantes devem ser tolerados. Pelo menos até que entendam que o dever de quem convive é, sempre, tolerar.

terça-feira, 2 de março de 2010

Por nada nesse mundo...

Lendo Memórias de Minhas Putas Tristes, do sempre genial Gabo, fiz uma coisa que em toda a minha vida de leitora poucas vezes havia feito: parei em uma frase. Muito tempo em uma só frase. “Não trocaria por nada nesse mundo as delícias do meu desassossego”. Nada tão simples e, ao mesmo tempo, tão avassalador poderia descrever com tamanha maestria o desassossego. Pode não parecer, mas ele é uma delícia.

Desassossegados, como bem descreveu Martha Medeiros, são aqueles que “amam com atropelo, cultivam fantasias irreais de amores sublimes, fartos e eternos, são sabidamente apressados, cheios de ânsias e desejos, amam muito mais do que necessitam e recebem menos amor do que planejavam.” São aqueles para os quais o coração nunca para de bater forte. Bate intenso, inconstante. Tudo é motivo para morrer. Morrer de amor, morrer de alegria, de ódio, de risada. Morrer de tudo.
Desassossegados são motivados pela angústia. Convivem com a ansiedade, lutam contra o tempo, amam o desafio. Odeiam o marasmo. E odeiam. Odeiam qualquer coisa, pois são movidos pelo intenso. E, se odeiam, amam ainda mais. Entendem-se sem se entender, falam sem pensar e, quando pensam, falam ainda mais. Podem, querem, correm, desistem. Conseguem.

Desassossegados buscam muito. Buscam tudo. Querem para agora, para ontem. Querem pra sempre. São um fluxo constante, intenso e persistente de emoções, de opiniões, de desejos. Eu sou um fluxo constante. Sou uma desassossegada. E não troco por nada nesse mundo as delícias desse meu desassossego.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O brilho muito além dos livros

Especial: Cobertura da 55ª Feira do Livro de Porto Alegre
Sentado em um pequeno banco de plástico, ele segura uma prancheta de madeira, sobre a qual coloca cuidadosamente uma folha de papel em branco. De uma lata de achocolatado bastante antiga, tira um lápis cujo tamanho denuncia o uso constante. A sua frente, uma menina, que aparenta ter no máximo 9 anos, segura um sorvete de chocolate. “O sorvete não, tá, tio? Só desenha até o pescoço.”

Silvio Miguel Alves é, pelo décimo ano, um dos inúmeros ambulantes que aproveita o movimento na Praça da Alfândega nos dias de Feira para lucrar. O caricaturista, além de desenhar com destreza os traços mais engraçados dos que arriscam se tornar uma caricatura, também faz retratos. “O movimento aumenta bastante na época da Feira. Eu estou sempre por aqui, mas época boa mesmo é agora. É hora de aproveitar”, afirma.

A poucos metros dali, Márcio e Karen Streck, de Canoas, observam um trabalho, no mínimo, curioso. Na placa que identifica o artista, a frase Escrevo quatro nomes em um grão de arroz. Enquanto aguarda a finalização da obra, que levará o nome do casal e de suas duas filhas, Karen, que visita o evento há mais de quinze anos, acredita que, além dos livros e dos autores, os artistas da Praça também são os grandes personagens da Feira. “É impossível vir para cá e não querer levar um livro. Mas existem lembranças que vão além da literatura e, daqui alguns anos, nos farão recordar que um dia estivemos aqui”, assegura.

Quem caminha pelas calçadas da 55ª edição da Feira já está habituado aos constantes anúncios dos alto-falantes. A voz feminina que ecoa pela Alfândega anuncia a presença de uma das mais antigas personalidades da festa dos livros: “Aproveite a Feira para tirar uma foto com o último lambe-lambe de Porto Alegre.” Varceli de Freitas Filho, que herdou a antiga máquina de seu pai, trabalha com fotografia desde os 12 anos. “A feira tem um glamour especial. São dias muito prazerosos, as pessoas contam que tiraram foto com o pai e que agora querem tirar com o filho”, conta, emocionado.

“Olha, filha, assim eram feitas as fotografias na época da vovó”. Segurando a mão da única
filha, a porto-alegrense Juliana Couto da Rosa aproxima-se de seu Varceli. A menina, bastante
surpresa, chega perto da grande câmera e a observa cuidadosamente. Para Juliana, Freitas é uma das marcas da Feira. "Vim para cá mostrar para a minha filha o último lambe-lambe. Não sabemos até quando Porto Alegre poderá dizer que tem o seu. Queria fazer com que ela entendesse um pouco do passado.”, diz.

As calçadas movimentadas da Praça da Alfândega são o palco de quem esperou o ano todo pelo evento cujo artista principal é o livro. Mágicos, pintores, contadores de histórias e pipoqueiros fazem transbordar, em cada um de seus gestos e palavras, a magia de um dos mais tradicionais acontecimentos da Capital. A Feira ganha um brilho especial por conta deles, que fazem a imaginação de cada visitante ir muito além das obras literárias.