segunda-feira, 19 de abril de 2010

O Brasil já esperava por uma tragédia

Brotou de debaixo dos escombros uma das mais inconvenientes verdades da política brasileira atual. A verdade é que não há proposta de política pública que encaminhe o lixo doméstico a locais específicos para este fim, uma vez que terrenos quaisquer são promovidos a aterro sanitário e, com o esgotamento de sua capacidade, voltam a ser solo suscetível à construção. O que existe é uma rede de interesses sustentada pela necessidade constante e desesperada de pessoas que se vêem frente a um dilema: morar em uma bomba prestes a explodir ou simplesmente não morar em lugar algum.

O Morro do Bumba era uma das tantas bombas prestes a explodir. De fato, explodiu. Explodiu e levou abaixo casas, restaurantes, igreja, escola e pessoas. Os mortos do Bumba foram mortos chorados antes mesmo de a tragédia acontecer. A catástrofe era iminente.

De 1970 a 1986, a localidade, no bairro Viçoso Jardim serviu de aterro sanitário para a produção desenfreada de lixo de Niterói. O solo, hoje preto, denuncia a decomposição do material que deu nome ao solo de contornos planos, perdidos por conta dos detritos. Em vez de reprimir a ocupação irregular do antigo lixão, o poder público incentivou sua ocupação. O Morro do Bumba foi berço de uma das primeiras obras de saneamento de Niterói: foi para lá que o então governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizolla, levou uma caixa d’água para atender os moradores. Logo depois, o programa Uma Luz na Escuridão chegou ao morro. Anos mais tarde, a prefeitura construiu uma escola municipal e implantou o programa Médico da Família. O Morro do Bumba havia se transformado em uma comunidade. Hoje, é o retrato do descaso do governo brasileiro em relação ao destino do lixo público.

A catástrofe no Morro do Bumba, que contabiliza mais mortos a cada resgate, já havia sido prevista por ambientalistas e ações movidas na Justiça. Permitir, por conta do descaso na fiscalização, que áreas impróprias sejam ocupadas sem controle algum é anunciar uma tragédia, e a indiferença à iminência da catástrofe fez o Brasil esperar, de certa forma conformado, pelo que viria a ser um dos maiores dramas de sua história.

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