domingo, 4 de outubro de 2009

Lugares onde o tempo parou

Por Lílian Stein e Daniela Fanti


Um dos últimos dias de inverno marcava, também, o retorno do sol, que já aparecia por entre os morros. A temperatura era amena e a brisa, agradável. O canto dos pássaros em meio aos pinheiros e às jabuticabeiras embalava o início da manhã de trabalho de Noêmia Backes.


Ao acordar com o badalar dos sinos da igreja da comunidade, que bate sessenta vezes às seis horas da manhã, dona Noêmia, de 57 anos, levanta para preparar o café da família. A mesa, no canto esquerdo da já iluminada cozinha azul, precisa estar posta em quinze minutos. O pão, a lingüiça, o “schmmier”, a nata e o leite, que compõem a primeira refeição da segunda-feira, são fruto da propriedade da família, no interior da cidade de Dois Irmãos. Enquanto aquece o leite, Noêmia olha para o grande crucifixo acima da antiga cristaleira e faz o sinal da cruz.


Dona Noêmia nasceu em Dois Irmãos, quando a cidade ainda era distrito de São Leopoldo. Desde pequena, trabalhou nas propriedades da família. Aos 34 anos, já casada e com duas filhas, foi morar na zona rural do município, a dois quilômetros do centro. Lá, em uma propriedade de nove hectares, criou suas filhas e construiu, junto ao marido, Roque, o lugar que chama de “meu paraíso”.


Às seis e trinta da manhã, o casal Backes já se divide entre as principais tarefas do dia. Dona Noêmia precisa buscar os ovos postos pelas quatorze galinhas. Seu Backes deve cortar a grama e recolher as inúmeras folhas espalhadas por entre grandes cupinzeiros e árvores cobertas por musgo. “Minha vida é este lugar, estes bichos. Não existe dinheiro que pague o cheiro, a lama e os sons daqui”, afirma Roque. Alimentar os porcos, bois, as vacas, os terneiros, gatos e coelhos são as próximas tarefas de dona Noêmia. Seu Backes fica encarregado de pegar o leite e cuidar da vaca que deu à luz na última semana. O dia na propriedade dos Backes está apenas começando.


A 110 quilômetros dali, em Garibaldi, o dia nem bem havia clareado, e seu Alcides Debiasi, 64 anos, já estava com a enxada em mãos. “Bon giorno! Estou atrasado, hoje há muita coisa para fazer!”. Depois de acordar ao som do canto dos galos e de tomar o café da manhã preparado pela esposa, dona Assunta, 59 anos, está hora de trabalhar.


Ao listar mentalmente as tarefas que o aguardavam, seu Alcides sequer pensou que, a poucos quilômetros dali, uma cidade inteira estava apenas acordando. E, sem sair dos arredores da casa, partiu em direção a seus oito hectares de terra, cobertos por parreirais ainda sem folhas, aguardando a chegada da germinação. Dona Assunta já sabe que em dias ensolarados não deve esperar o marido para o almoço. “Nessa época do ano chove muito, e como dependemos do tempo, em dias como este é preciso acelerar o trabalho”, afirma, amarrando em volta da cintura o avental bordado por ela.

Enquanto se despede do marido, Assunta lava a louça preferida que ganhou de casamento, há mais de 35 anos, e guarda o pão, os biscoitos, a cuca, o bolo e as geléias, tudo feito em casa, em um armário coberto por um tecido xadrez rendado nas laterais. Ainda do armário, apanha dois baldes brancos vazios e sinaliza a próxima atividade do dia: “Não me lembro de ter comprado leite em toda a minha vida”.

Dona Assunta segue até a porta, onde veste os chinelos apropriados para a caminhada, e deixa a casa rumo à estrebaria. A estrada de terra, estreita o suficiente para que passe o pequeno trator da família, exibe as marcas feitas pelos pneus da máquina recém adquirida. Enquanto anda por entre as parreiras, olha para o horizonte coberto de verde e, com um sorriso estampado no rosto, afirma: “Não trocaria minha casa por nada neste mundo”.

Finais de semana são de festa e oração

Tipicamente alemã, o município de Dois Irmãos é um dos pólos de preservação da cultura alemã no Rio Grande do Sul. O interior da cidade concentra inúmeras famílias que abriram mão dos avanços tecnológicos da atualidade para preservar as tradições de seus antepassados. Assim como os Backes, mais de trinta famílias vivem no Vale Esquerdo, bairro da zona rural.


Aos finais de semana, os encontros no salão da comunidade são o principal passatempo das famílias. Ao lado da pequena igreja rosa, construída com a ajuda dos moradores da localidade, Seu Backes se reúne para jogar o tradicional jogo de cartas Schaffkopf, trazido pelos imigrantes alemães em 1824. Ao som de “bandinha”, os casais rodopiam pelo salão vestidos com os trajes de festa, chamados pelos moradores de “roupa de domingo”. Dona Noêmia afirma, em alemão: “Die Fest kommt nach der Messe”, ou “a festa vem só depois da missa”.


Em Garibaldi, os finais de semana são movimentados pelos jogos de bocha. O jogo chegou à Serra Gaúcha em 1875, junto às primeiras famílias italianas, época em que o município recebeu seu primeiro nome, Colônia de Conde D’Eu. Desde então, famílias como os Debiasi, os Sartori e os Nicaretta, seguem preservando os mais tradicionais costumes de seus antepassados.


Em Marcorama, na zona rural da cidade, onde vive Dona Assunta, aos finais de semana, as famílias italianas preservam um costume semelhante ao alemão, e se reúnem no salão da comunidade para festejar, comer, dançar, jogar cartas e rezar. Uma vez por ano, é realizado o campeonato de futebol entre as famílias. “Os times são formados a partir do sobrenome, não importa a idade. É mais um momento para relembrar nossas origens”, conta Dona Assunta.


Para o professor do curso de História da Unisinos Martin Dreher, a preservação da cultura dos antepassados faz parte da vida de quem vive no interior. “A vida nas zonas rurais mostra que há tecnologias que não são de primeira necessidade. As circunstâncias impostas a quem opta por esse estilo de vida chega a causar inveja a muitos urbanos, que buscam sítios próximos às cidades. Os rurais nos lembram quem fomos ontem”, comenta o professor.


Ao final do dia, sentada em frente a sua casa, dona Noêmia afirma ter orgulho de suas origens. “Vivo aqui porque quero. Não sinto falta de internet, nem quero saber como é.” O marido, que segura o gato da família no colo e fuma um cigarro de palheiro, complementa: “Nós, sim, sabemos o que é felicidade.”


Alcides Debiasi retorna à casa, construída há mais de cem anos, pouco depois das cinco horas da tarde. Dona Assunta já preparou o jantar: sopa de capeletti. O casal senta em frente ao fogão à lenha, a última atividade do dia. “Não precisamos de rádio nem de televisão. Em frente ao fogo, temos um momento só nosso. Aqui, podemos conversar”, afirma seu Alcides.


A noite de segunda-feira se aproxima em Dois Irmãos, na propriedade dos Backes e Garibaldi, na terra dos Debiasi. Os animais estão dormindo, o canto dos pássaros silenciou e o sol já não forma clareiras por entre as árvores. O tempo, para quem vive no interior de Dois Irmãos e Garibaldi, parece ter parado. Mas só parece. Lá, a vida está apenas começando.

* Para a disciplina de Redação Jornalística II do curso de Jornalismo da Unisinos

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Meus dez minutos com o Lula

Se existe uma pessoa nesse mundo com quem eu gostaria de ter dez minutos para conversar, essa pessoa é o Lula. Não por eu achá-lo o líder incontestável, como é pintado por uns, nem o pobre vencedor, como julgam outros. Nada disso.

Queria mesmo é dizer umas verdades para ele. Enquanto escrevo essas palavras, no momento em que quase quebro o teclado com a força com que digito, penso nesse cara que o povo colocou no Palácio do Planalto. Penso, aliás, em todos esses caras que o povo colocou lá. Penso nesses bandidos que não têm o mínimo de escrúpulos, que mentem com uma cara de pau inacreditável, que me fazem querer quebrar a televisão, jogar o computador janela afora e bater na cara deles com um jornal.

Queria dizer para esse tal de Lula, que “nunca antes, na história desse país”, eu tive tanta vergonha de dizer que sou brasileira. Queria dizer para ele, também, que “nunca antes, na história desse país” vi tanta injustiça ser tratada como um assunto qualquer. Diria, ainda, que “nunca antes na história desse país” quis chorar de raiva do povo que te colocou onde hoje tu estás. Por último, Lula, seu jumento gorducho, eu gritaria, bem no teu ouvido, tudo o que andam fazendo por aí, bem debaixo do teu narizinho. Aí, quem sabe, tu pararias com essa hipocrisia de dizer que “não sabe de nada”.

Sete segundos da minha própria Lagoa Azul

“Se não existisse dinheiro no mundo, eu não precisaria estudar, porque de qualquer maneira eu não seria rico.”

Ouvi essa frase do meu irmão. Dezesseis anos e uma vontade sobrenatural de passar o dia matando pessoas via computador enquanto imita o Lula e o Sílvio Santos ou canta Ursinho Pimpão e músicas do gênero. Por um momento, talvez por 7 segundos, pensei que ele pudesse ter razão.

Foram sete segundos bem interessantes, para falar a verdade. Me imaginei construindo uma casa como eles fizeram na Lagoa Azul, pescando e nadando no mar como foi na Lagoa Azul, descobrindo rituais macabros na floresta, como eles descobriam na Lagoa Azul e tomando banho no rio com cachoeiras que tinham até uns tobogãs naturais, como na Lagoa Azul. Achei o máximo.

O sétimo segundo foi o último de deslumbramento. Depois, pensei que não leria mais jornal, que meu celular, meu iPod e meu notebook não existiriam nem na minha imaginação e que eu não poderia viajar, nem postar no blog, nem dormir com ar-condicionado e muito menos jogar Bubble Shooter. Me lembrei de que não teria televisão para assistir CQC e que, que tristeza, o CQC nem existiria. E eu ainda teria que viver comendo frutas. Era só o que me faltava.

“Fica quieto, guri. Vai estudar!”

Uma força maior que tudo

Foi um sorriso triste. Ainda assim, foi um sorriso. De saudade, provavelmente. Uma saudade longe dos clichês de “que tempo bom que não volta nunca mais.” O meu tempo volta, sim. Na verdade, ele não volta, ele apenas está, ainda, para chegar.

Um mundo de gente diz, todos os dias, que tempo bom é aquele que passou, e eu insisto em discordar desse tipo de afirmação. Tempo bom é o que estar por vir, pôxa! Vai olhar para trás por que?
Não nego e não esqueço dos inúmeros e homéricos turbilhões quais passei e afirmo que sempre encontrei coisas boas depois daquilo que julguei ser intransponível. Estou viva. Tenho marcas, somente. E garanto, todas me fizeram ser melhor.

Tive comigo, sempre, uma força que me fez ver que havia algo esperando. E não há experiência negativa que não comprove a extrema inteligência do velho ditado popular “há males que vem para o bem”. Com uma pequena modificação, digo “os males sempre vem para o bem”.

Resta deixar para trás o que passou, que o que vem por aí, por mais difícil que seja, vem para me fazer crescer. Que venham outras tempestades. Comigo, apenas uma força. Uma força maior que tudo.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Te quero comigo

Dizem ser o ciclo da vida. Nascer, crescer e morrer. Toda essa teoria é muito fácil quando está longe dos olhos e, mais ainda, do coração. É inútil querer lutar contra a força do que está acima de tudo. Simplesmente, a hora começa a se aproximar. E àqueles que não abrem mão dos inúmeros clichês cabíveis a essa situação, apenas digo: eu não estou preparada.

Não sei lidar com a ausência, com a saudade, com a perda. Não me conformo com o nunca mais, com o silêncio e com o vazio. Continuo querendo aquelas palavras, aquelas histórias, a torcida, o abraço, as palmas. Elas ainda estão aqui, mas eu não sei até quando.


Se pudesse, te faria durar para sempre. Se pudesse, congelaria o tempo durante os almoços de domingo, as conversas sobre futebol, os carteados e as brincadeiras. O tempo, contudo, é implacável. Não perdoa, não espera e, infelizmente, não me deixa te ter para sempre. Te guardo com todo o meu amor, com toda a minha torcida. Te quero aqui. Fica com a gente, tá?

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Ela não iria desistir

Quando parou para pensar, percebeu que não estava errada. De grande alívio sua alma foi invadida, e embora estivesse triste, seu coração encheu-se de alegria. Ela não estava errada. Não tinha culpa de sonhar, de sentir, de querer. Mais do que isso: percebeu que lutar por tudo aquilo que queria não era errado, embora tentassem fazê-la pensar de tal maneira. Não estava errada!

Tudo aquilo que a fazia mal, no mesmo instante, deixou de existir. Não mais faria diferença. Não era justo deixar-se corroer por algo que, na verdade, não existia. A força que lhe faltava veio como que em choque. Estava forte novamente. E pronta. Reergueu-se. A partir daquele momento, deixar de sonhar estava proibido.

Não podia deixar tudo aquilo para trás. Era demais, era lindo, era perfeito. Precisava lutar por isso. E era exatamente o que iria fazer.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Minha autoconfiança exagerada

E depois de quase um mês, volto para, de certa forma, desabafar a respeito do excesso de autoconfiança que ronda minhas atitudes e pensamentos no últimos tempos. É como se eu pudesse tudo. Eu sei tudo, posso tudo, consigo tudo. Se eu não consigo é porque eu não quero, só por isso.

Não chega a ser egocentrismo. Eu acho. Na verdade, essa sensação de ‘tudo só depende de mim’é boa, até. Juro! Mas, sei lá, me disseram que é errado, e essas regras da sociedade costumam me assustar um pouco.

Não consigo classificar esse tipo de pensamento de maneira positiva e sei que, certamente, devem pensar que pode ser falta de humildade. Mas não é, eu juro, de novo.Entretanto, vi que, realmente, as coisas estão ao meu alcance. Tudo, na verdade. Só ao meu. Só depende de mim. Eu.

Comecei a escrever sem a menor idéia de onde chegaria. E, bom, quando escrevi esse ‘eu’ me dei conta da imensidão de gente que essa palavra engloba. Família, amigos, relações profissionais, o motorista do ônibus, a empregada. Todos fazem parte desse ‘eu’. E, embora eu continue com a convicção de poder tudo, percebi que por trás de mim existem outros.

Nem deveria falar isso, porque certamente vai parecer hipocrisia. Mas foi pensado, tem que ser escrito, não posso deixar passar. Porque comecei a escrever com esse pensamento super autoconfiante e, agora, termino vendo que eu sou apenas o produto final. E por trás de um produto final existem, sempre, grandes pessoas. É... Acho que aprendi.